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Victor Arruda


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 12 de agosto de 2018 - 0 comments

Realizei, recentemente, uma visita ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro que apresenta, de março a setembro deste ano, a exposição “ARRUDA, Victor”, com curadoria de Adolfo Montejo Navas. A exposição que homenageia a trajetória do importante artista brasileiro Victor Arruda (Cuiabá, 1947), possui cerca de cem trabalhos produzidos entre os anos70 até o final de 2017. Na ocasião conversei com Victor Arruda sobre o seu trabalho e sobre seu amor à psicanálise, e tentei capturar algo do que é (im)possível ler a partir do artifício da sua arte, já que a letra introduz uma escrita que se origina de um lugar diferente do significante, conforme nos indica Lacan.

A arte de Victor Arruda além de questionar o apogeu e a queda do falocentrismo na cultura brasileira, no período de 50 anos, ora pelo viés fetichista, ora pelo viés da segregação e dominação de classes, localiza um dos mais surpreendentes efeitos da inconsistência do Outro, a ironia. Ironia que Miller[1] aludiu talvez ser a única poesia que fique a nosso alcance, ao lembrar o esforço de Balzac na Comédia Humana: salvar o pai em uma modernidade que o reduz a sua mínima expressão.

A pintura de Victor Arruda é definida por Navas[2] como crítica tanto no que se refere aos aspectos artístico e sociocultural, como também ao campo da recepção estética, e sua poética tem o traçado de seu próprio destino independente das coordenadas de sua época: “Eu era um artista contemporâneo antes mesmo de este termo ser usado, porque não me identificava com nada do que se fazia na época. Tudo era moderno e eu não era moderno”.

Dois fatos foram determinantes na trajetória do artista. Em Paris (1973), ao entrar no Grand Palais, a claridade do dia de verão parisiense, em contraste com a penumbra do interior do museu, fez com que ele pensasse que as telas do pintor expressionista Ad Reinhardt (1913-1967), expostas na grande galeria, fossem negras. Quando os seus olhos se acostumaram à luz da galeria, ele pode perceber que se tratavam de cruzes em um tom de cor púrpura sobre um fundo negro. “Aquilo era de uma tal sofisticação cromática, que pensei: isso não é pro meu bico”. “E o que era o meu bico? As pinturas que eu já estava fazendo”.

Outro fato decisivo contribuiu para localizar de forma singular o seu trabalho no âmbito da arte. Decidiu morar por um período em Londres e, ao visitar uma exposição de Lichtenstein (1923-1997) na Tate Gallery, relata : “Quando vi aquelas telas enormes, uma metralhadora mandando bala em um avião que já estava explodindo (“As I Opened Fire”, 1964), pensei ‘é por aqui que tenho que ir’. Mas espera aí: “isso aqui é a pop-art americana, e eu não vou copiar o Lichtenstein, eu não nasci para isso. Eu não tinha a menor chance de competir com aquilo que eu admirava tanto. Não ia ser o seguidor, de última categoria, do Picasso”. Então, escrevi em um pedaço de papel: “não pinto para virar verbete”, e acrescenta: “Sou brasileiro, sou de Cuiabá, Mato Grosso. Não vou fazer arte para mostrar em Nova York. Não sou seguidor de ninguém”[3].

A experiência com a psicanálise foi igualmente relevante para a sua criação. “A psicanálise revirou tudo, a série de culpas por ser homossexual, por não ser uma pessoa dita normal, permitindo que eu enfrentasse as questões que vinham de fora, o dedo acusador. Passei a questionar quem era o homem normal, pai de família, sério, que usava terno. Aquele que acha normal assediar a empregada que é negra, e que não paga o salário dela. Decidi que minha pintura tinha que ser uma reação contra isso”. “Só que não podia falar sobre isso. Por que? Porque a arte era moderna. Não podia ter texto, não podia ter narrativa, não podia ter frente e fundo, não podia ser autobiográfico, não podia sexo, não podia nada! Sabe o que resolvi fazer? Resolvi me servir de tudo isso ao mesmo tempo!”

O gesto crítico e irônico de Victor Arruda, presente de forma radical em sua pintura durante pelo menos duas décadas, acusa a inexistência do Outro e a falta de consistência discursiva imposta pela cultura que determina e impõe sentido. Ainda é possível dizer que muitos de seus trabalhos desvelam, em sua face mais irônica, que o campo do Outro, onde os efeitos de significação são produzidos, não se mantém fora da crença que o sustenta, levando às últimas consequências a afirmação de Lacan de que não há discurso que não seja do semblante.

Destaco um de seus trabalhos entre vários: “Homenagem às vítimas do dinheiro”. Ao não ser convidado para participar da feira ArtRio/2014 o artista aluga uma traineira com um letreiro em neón e participa de “penetra” da mesma. Essa obra que foi a mais comentada e fotografada do evento colocava em xeque o modelo de negócios da feira de arte que reunia os maiores colecionadores de arte do mundo, evidenciando a transmutação do valor do dinheiro, de sua dimensão de objeto de troca simbólica para a de objeto de gozo do discurso capitalista.

 


[1] Miller, J. A. Um esfuerzo de poesia.Buenos Aires: Paidós, 2016, pág.277.
[2] Navas, A. M. Victor Arruda. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011. Pág.7.
[3] http://artrio.art.br/noticias/arruda-victor-uma-homenagem-ao-artista-victor-arruda