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Sobre o destino do falo na perspectiva do sinthoma


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 12 de agosto de 2018 - 0 comments

A função do Pai mudou e com isso a “bússola fálica perdeu seu brilho e seu caráter operatório”[i]. Nesse sentido, os semblantes que costumavam acolher um modelo de identificação regulado pelo pai da tradição, e pelo Ideal, tornaram-se precários para abordarmos os modos de situar a pulsão na atualidade.

“Novos modos de respostas surgem, novas formas de viver a pulsão, novas maneiras de conexão com o Outro que não passam apenas pelo falo, pelo Édipo e pela castração… tal operação parece se servir menos da identificação como um modelo e mais da presença real de um encontro contingente, entre palavras e corpos, cujo modo de inscrição abre alas para passagem do que é próprio de cada um”.[ii] Quer dizer que, para cada um, há um real inassimilável, um limite do pai. A descrença no universal do Pai modifica a clínica e o falo tem se mostrado menos eficaz em sua função de significante da diferença sexual. O que é ser homem ou mulher, como criar os filhos, como amar, como viver a pulsão na atualidade, tudo isso questiona a ordem fálica. Pergunto sobre as consequências dessas mudanças, onde a sinthomatização do sexual não está referida apenas à castração. Há de fato um novo paradigma, que evidencia que algo do objeto resta fora da significação sexual dada pelo fálico.

O falo apresenta diversas leituras ao longo da obra de Freud e de Lacan, desde a sua condição de significante, presença e ausência, entre ter e ser, deslizando quanto à posição do sujeito, quanto ao seu desejo e ao desejo do Outro. Inicialmente, em seu texto “A significação do falo” [iii], Lacan demonstra que o complexo de castração inconsciente tem uma função de amarração fundamental. O falo como produto da operação “Nome do Pai” enlaça o Édipo, a castração, o sintoma, a linguagem e o inconsciente.

Ao longo do ensino de Lacan, verificamos mudanças importantes e uma pluralidade conceitual da função do falo: no registro simbólico, como significante do desejo; depois, como significante do gozo; e como semblante. Penso ser importante priorizar as contribuições a partir do Seminário 10 e, depois, dos Seminários 18 e 20, onde surge uma nova dimensão do gozo, que escapa à dimensão simbólica, através de uma lógica não fálica, referida ao excedente pulsional.

Esse ponto é fundamental para pensarmos o que mudou na nossa prática hoje. Nessa perspectiva o falo não está localizado apenas como resultado da metáfora paterna, como significante da falta, articulado à castração, mas como obstáculo à diferença sexual, na dimensão autista do gozo. Na queda do semblante do Pai, há gozo e são muitos os modos de conexão–desconexão com o Outro na atualidade, assim como são múltiplos os Nomes do pai- sinthoma.

“O semblante consiste em fazer crer que há algo ali onde não há”. Por isso a fórmula ‘não há relação sexual’ implica que, no nível do real, só há semblantes, não há relação.[iv]” O significante é sempre precário para dizer e ordenar a sexualidade – o que implica que o falo produz sentido e gozo, mas não todo, de modo que sempre escapa um resto não simbolizável.

Efetivamente, a significação do falo, seja por sua presença ou por sua ausência, continua introduzindo a diferença no real do sexo. As mudanças sintomáticas não poderiam ser entendidas sem a compreensão da multiplicidade das significações do falo na atualidade para significar o desejo. São muitas. Penso que a significação fálica, vinculada ao desejo do Outro hoje, tende a se separar dos fenômenos do gozo do corpo, considerado como gozo autista, separado do Outro. Dessa forma, quando se trata de gozo, a questão da diferença está na dimensão do Outro que não existe. Será nesse sentido que Miller[v] dirá que o objeto é assexuado (não todo fálico), a sexualidade por relação ao objeto não diz respeito à diferença sexual, tampouco ao desejo do Outro. Trata-se aqui do direito ao gozo.

A partir desta nota pergunto como as invenções sinthomatizadas podem fazer, do excessivo do gozo, um limite. O passe na Escola representa uma possibilidade de verificar o final de análise na perspectiva do sinthoma na dimensão de um real incurável. Nesse sentido é que: “Dominar o gozo é impossível; ele restará sempre outro”.[vi]·. Mas haverá sempre um Nome para tentar limitar o ilimitado. Quer dizer que, na perspectiva do sinthoma, há uma possibilidade de fracassar, sempre, de “boa maneira”. [vii] Esta parece ser a transmissão do que pode a psicanálise, para o novo real da sexualidade, sustentada pelo Um do gozo.

 


[i] Bassols, M. “A psicanálise, a ciência, o real”. Opção lacaniana 11, 2015 p.162
[ii] Laurent E. “Inconsciente e acontecimento de corpo”. Correio n. 78, São Paulo, 2016, pp. 25-38.
[iii] Lacan, J. “A significação do falo”. Escritos, Rio de janeiro, Jorge Zahar, 1998 p. 692
[iv] Miller, J.-A. De la natureza de los semblantes (1991-1992) Buenos Aires, Paidós, 2002 p. 18.
[v] Miller,J.-A. “Os seis paradigmas do gozo”. Opção Lacaniana n 26/27, 2000, pps.101-105
[vi] Laurent E. ‘Subversion des théories du genre » – Michélè Paris- 2015 Revista Curinga n 42 EBP-Minas.
[vii] Miller, J.- A. “Como se revoltar”. Conferência pronunciada em 8 de abril de 2010. Correio n 60 São Paulo p. 7-14.