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XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 27 de setembro de 2018 - 0 comments

Ivana Arruda Leite e seu “Falo de Mulher”

“Falo de Mulher” (Ateliê Ed., 2002) é o nome provocativo do livro de contos da escritora paulista Ivana Arruda Leite[1]. A dubiedade do título revela diversos aspectos em relação à localização da mulher no discurso.

Marie-Helénè Brousse[2] destaca que Lacan, ao demonstrar a função do falo, o desimaginariza em relação ao pênis e o localiza como uma função ligada à palavra. Se a causa feminista nos anos 70 era a tomada de poder pela autonomia dos corpos, o que se trata no contemporâneo é a tomada do poder a partir da palavra, “o falo como poder da palavra” [3].

“O que se passa hoje é que Elas Falam!” [4]. Contam sobre suas “saias justas” [5], suas dores e delícias de serem o que são e de gozarem de várias maneiras. Testemunham a “batalha pela repartição do poder fálico de falar” [6].

Quem são essas mulheres que falam nos contos de Ivana? É a autora que fala por elas ou que dá voz a elas? De que falo Ivana fala?

As mulheres dos contos de Ivana colocam questões prioritariamente femininas em relação ao campo do amor, mas fazem isso sem estereotipia; não são feministas de carteirinha, muito menos pobres vítimas dos homens.

Ivana extrai da feminilidade aspectos polêmicos, mas que se apresentam como traços marcantes do feminino: a maledicência, a agressividade, a rivalidade fálica, o “ódio ao semblante”[7] e outros.

Seus contos expõem a “falsa fragilidade” feminina sustentada pela lógica do patriarcado, falsa fragilidade que vela a forte relação com o falo e o semblante, seja para encarná-lo seja para rechaçá-lo.

Em suas “quase fábulas”, Ivana usa acidez, ironia, cinismo e humor negro para abordar a condição da mulher nas parcerias amorosas. Esses recursos de escrita revelam um tipo de tratamento dado pela autora para (a)muro do amor, para além do discurso de denúncia ou demanda histérica sem fim.

É o amor-ódio que Ivana faz falar por meio do humor. Freud dá ao humor um lugar privilegiado, como “uma das operações psíquicas mais elevadas”, “um dom raro e precioso” [8]. Afirma que “o humor não é resignado, mas rebelde” [9].

Muitos de seus contos ironizam a estereotipia do universo burguês da mulher “bela recatada e do lar”, tal como o que abre o livro “Receita para comer o homem amado”, em que brinca com a linguagem das revistas femininas e suas “receitas infalíveis” para conquistar os homens. Na receita de Ivana, o prato é o homem e o verbo “comer” é literal e não metafórico. A receita não é para se submeter ao desejo masculino, mas sim decepar, fritar e comer o homem causa de sofrimento.

Antônio Teixeira destaca que “a ironia vem exibir a falta de fundamento ou a inconsistência do discurso do qual alguém se autoriza para impor um determinado sentido a outro discurso”, como no conto abaixo, onde a ironia fina revela aquilo que Miller chama de “ódio ao semblante” [10] presente nas mulheres. A “desmontagem irônica dos efeitos de significação” [11] faz furo e expõe o engodo dessa ideia de fragilidade feminina.

Nem tudo é verdade

O que me irrita nesses rapazes com quem tem transado é a mania de querer conversar depois do sexo

Saudade do tempo em que os homens simplesmente viravam de lado e dormiam

Eles levaram muito a sério nossas reclamações.

O conto “Horóscopo” ironiza tais colunas dos jornais, dirigidas ao público feminino supostamente em busca de amor. No “Horóscopo” de Ivana o humor negro faz furo no discurso prêt-à-porter. O conto inicia com a frase: “Estava escrito que um de nós devia morrer. Por que eu?” E assim a mulher, de Gêmeos, que vivia à sombra de um leonino garboso, dedica sua vida a vê-lo desfalecer.

Muitos dos contos levam nome de mulher. Poderíamos supor que cada nome remete a uma história. Mas não é bem isso. Cada mulher nomeada porta um “torpedo-surpresa”, algum ponto singular que, ao mirar seu alvo, atira e atinge não apenas o outro, mas também a sua própria imagem, revelando mulheres muito mais próximas do real.

E assim Ivana segue pervertendo os agentes dos discursos por meio da linguagem e revelando, tal como em “Puta seletiva”, que, em última instância, o que o semblante vela é o impossível encarnado na mulher e na morte.

 


[1] Escritora de contos e romances, dentre eles: Contos Reunidos. Ed Demônio Negro, 2015. Breve passeio pela história do homem. Ed. Reformatório, 2016. Foi colunista da Folha de S. Paulo, 2000.
[2] M-H Brousse. Entrevista XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. http://encontrobrasileiro2018.com.br/marie-helene-brousse-a-queda-do-falocentrismo/
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Saia Justa: programa de mulheres no canal GNT, desde 2000.
[6] M-H Brousse. Entrevista XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.
[7] Miller, J-A. Mulheres e semblantes I. Opção Lacaniana online.  Mar 2010.
http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_1/Mulheres_e_semblantes_I.pdf
[8] Freud, S (1905/1996). “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, v.VIII.  Obras Completas. RJ: Imago.
[9] Freud. S. (1927/1996) “O Humor”, v. XXI. Obras Completas. RJ: Imago.
[10] Miller, J-A. “Mulheres e semblantes I”. Opção Lacaniana online.  Mar 2010.
http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_1/Mulheres_e_semblantes_I.pdf
[11] Teixeira, A. “A vocação irônica da psicanálise”. Tempo psicanalítico, v.142. RJ, Jun 2010