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XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 9 de setembro de 2018 - 0 comments

Sobre o falo, o saber e as redes sociais

A “queda do falocentrismo” nos interroga tanto como fenômeno em si, como em suas possíveis “consequências para a psicanálise”. Tenho lido, ouvido e aprendido com colegas que exploram as nuances desse tema em torno do exercício do poder e da política, da partilha sexual, das relações econômicas, entre tantos outros.

A partir daí, busco aqui explorar uma certa vertente de relação atual com o saber experimentada nas redes sociais, que ocupam um lugar central na compreensão da subjetividade de nossa época. Antes, um breve retorno.

Scilicet e Facebook

“Você pode saber o que pensa a Escola Freudiana de Paris”. Estampada na capa de Scilicet, a publicação lançada por Lacan em 1968, essa frase traduz o espírito que deveria orientar sua Escola.

Me diverti ao pensar que o Facebook se inspirou em Scilicet: “No que você está pensando?” é a sua frase “de capa”, que nos convida permanentemente a publicar o que nos vem à mente. Hoje, você pode saber o que pensam não apenas a Escola Freudiana de Paris, mas também os mais de 2 bilhões de seres falantes que se servem da rede social.

Entre a publicação do pensamento de uma Escola e a convocação feita pelo mestre contemporâneo, o que se alterou? Essa distante contraposição poderia jogar alguma luz sobre as mudanças nas dimensões imaginárias e simbólicas do falo? Para buscar isso, é preciso resgatar qual era o Outro de Lacan ao lançar sua revista.

O ‘subtítulo’ de Scilicet não era um mero convite ao leitor. Anos antes, em “A situação da psicanálise em 1956”, Lacan havia descrito com acidez e irreverência o funcionamento da IPA, através de alguns personagens anedóticos. Ali, o único gradus a operar era aquele da “Suficiência”, que “encontra-se para-além de qualquer comprovação” e “não tem que bastar para nada, já que basta para si mesma”[1]. Sob elas, encontram-se os “Sapatinhos apertados”, que tampouco têm algo a dizer, uma vez que “um bom analisando não faz perguntas”[2]. Justamente numa Sociedade, “cuja incumbência é manter um certo discurso”, “o silêncio impera soberano”[3]. Scilicet era, portanto, uma interpretação desse cenário.

Embora Lacan dê grande destaque à prevalência do imaginário nesse funcionamento institucional[4], marcado pela enfatuação e pelo carisma improdutivo, creio tratar-se de uma modalidade específica de manifestação do imaginário, própria a um contexto onde o simbólico ainda se sustenta na eficácia do falo. Isso se confirma, me parece, na medida em que Lacan, nesse mesmo texto, descreve o funcionamento da IPA de um modo congruente com a estrutura dos grupos artificias observados por Freud[5].

Assim, a imaginarização do falo sob o modo do silêncio e da enfatuação seria própria a um regime onde a significação fálica permite a mobilização de uma suposta verdade transcendente à fala concreta. Ainda que sob a forma ridícula da roupagem imaginária, era possível manipular a suposição de que as Suficiências detinham o saber sobre o que era ser psicanalista. Trata-se, nesse caso, de uma confusão entre falo imaginário e falo simbólico típica de circunstâncias onde, justamente, o falo simbólico ressoa na cultura[6].

Era exatamente nesse ponto que incidia a interpretação de Lacan, através do subtítulo de Scilicet. Se a relação da Sociedade tanto consigo mesma, quanto com a cultura, era de retenção, produzindo uma vertente imaginária da suposição de saber, Lacan convocava sua Escola ao saber exposto, um verdadeiro antídoto contra a enfatuação. Longamente trabalhada por J.-A. Miller em O banquete dos analistas, a função do saber exposto integraria, inclusive, a própria concepção de fim de análise, uma vez que, através do passe, “finalmente liberado da suposição, o saber atinge o estado da exposição”[7].

Na “Introdução de Scilicet…”, Lacan dá à sua aposta no saber exposto uma importante precisão: “o ser que pensa (com a ressalva de que ele o é como aquele que não sabe disso), esse ser, digo eu, não é sem se pensar como questão do seu sexo: sexo de que ele realmente faz parte por seu ser, já que nele se coloca como questão”[8].

Essa densa passagem mereceria uma longa reflexão, mas, nesse momento, retenho dela o fato de que, no mesmo momento em que publica o pensamento de sua Escola, Lacan afirma a dependência do pensamento à questão que o sexo impõe ao ser. Logo, no pensamento que importa a Lacan, nada de enfatuação, nada de silêncio, nada de garantias transcendentes.

Publicação generalizada

O saber exposto que, naquele momento, agiu como uma interpretação é, hoje, o mandamento do mestre, que se impõe desde a onipresença da avaliação, passando pela vulgarização científica até o funcionamento das redes sociais. Uma das bases dessa mudança é, a meu ver, justamente a fragilização da função simbólica do falo. Afinal, hoje parece improvável que o silêncio e a enfatuação sejam capazes de produzir o carisma e a suposição de saber.

Pelo contrário, a fragilização do aspecto simbólico do falo – que, articulado ao patriarcado, cria prismas mais ou menos estáveis de significação e legitimidade – demanda que se busque a autoridade sistematicamente, no próprio momento em que se enuncia a mensagem. Teríamos, assim, um ambiente que não é propriamente “mais” imaginário que aquele que o antecedeu, mas sim marcado por um modo distinto de funcionamento deste registro. Se o silêncio poderia simular a guarda de um segredo, hoje quem não aparece, desaparece.

Desse modo, o chamado à permanente publicação do pensamento somado à fragilização dos filtros tradicionais produz uma espécie de competição global e aplainada pela fala, servindo como um dos combustíveis para a tendência à radicalização nas redes sociais. Afinal, na falta dos instrumentos que davam eficácia ao funcionamento simbólico do falo, a autoridade tende a ser medida pelo tamanho do impacto de uma fala, o qual será, por sua vez, medido em quantidade de cliques ou de likes. No limite, torna-se preciso criar para si uma certa versão imaginária do falo a cada vez que se toma a palavra.

A psicanálise nas redes

Como pensar, nesse cenário, o poder subversivo da fala psicanalítica? Um dos modos, creio, seria justamente resgatar a já citada advertência de Lacan, de que “o ser que pensa (…) não é sem se pensar como questão do seu sexo: sexo de que ele realmente faz parte por seu ser, já que nele se coloca como questão”.

Ocorre que, curiosamente, é possível que também nesse ponto a psicanálise encontre uma perturbadora homologia com o discurso dominante[9]. O modo como tem sido usada a notória expressão “lugar de fala”[10], que orienta o discurso político-social atual, não seria uma espécie de tradução imaginária para o alerta de Lacan, para a articulação entre o pensamento e a posição de cada um na sexuação? Nesse caso, em lugar de remeter o pensamento ao sexo como aquilo que produz sua inconsistência, ele seria relacionado justamente à consistência de uma identidade situada como base imaginária e fálica para a enunciação.

É provável que a “questão” que o sexo impõe ao ser e ao pensamento esteja hoje deslocada para uma “questão” dirigida ao campo social, sobre como esse acolhe ou deve acolher os distintos modos com que o ser falante nomeia sua posição na sexuação. Oferecer-se como espaço e dispositivo discursivo onde a “questão” do sexo pode tornar-se um texto singular e se articular intrinsecamente ao pensamento é uma orientação permanente para a psicanálise. Mas, na era das redes, como segui-la sem o risco de essencializar novamente o indivíduo? Dito de outro modo, como manter a “pega” no singular sem fazer do corpo e do sexo um desvio rumo à psicologia individual? Que o XXII Encontro me ajude a desvendar essas e outras questões.

 


[1] Lacan, J. “A situação da psicanálise em 1956” in Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 1998, p. 478.
[2] Ibid, p. 480.
[3] Ibid, p. 480
[4] A identificação ao analista como direção do tratamento seria análoga a uma instituição onde a suposta transmissão da posição analítica se dá por “uma reprodução imaginária, que por uma modalidade de fac-símile análoga à impressão, permite sua tiragem num certo número de exemplares” (ibid, p.479).
[5] Na Sociedade, diz Lacan, “é por uma linha individual, na identificação coletiva, que os sujeitos são informados; essa informação só é comum por ser idêntica em sua fonte. Freud enfatizou o fato de que essa é a identidade que a idealização narcísica traz em si (…)” (E 482).
[6] Cf. sobre esse tema a entrevista de Marcus André Vieira no site do XXII Encontro Brasileiro: https://www.youtube.com/watch?time_continue=568&v=8fiYHQJZ5O0
[7] Miller, J.-A. – EL banquete de los analistas. Buenos Aires: Paidós, 2010, p. 194.
[8] Lacan, J; “Introdução de Scilicet no título da revista da Escola Freudiana de Paris”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2003, p. 288.
[9] Em “Uma fantasia”, J.-A. Miller sustenta a tese de que o discurso dominante se escreve do mesmo modo que o discurso do psicanalista. Miller, J.-A. “Uma fantasia”, Opção Lacaniana, n. 42, 2005, p. 7-18
[10] Importante ponderar que, em sua acepção original, a expressão busca alertar para o fato de que mesmo uma posição aceita em dado contexto como ‘universal’ é tão relativa como todas as demais.