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XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 9 de setembro de 2018 - 0 comments

O falocentrismo: cai ou não cai? Tomara que caia

Eis a atual querela do falo? Na maravilhosa canção de Cole Porter, cai-se[1] no amor com a relação sexual generalizada. Let’s do it, let’s fall in love. Como disse Lacan falando com as paredes, o discurso capitalista não leva a cair no amor, mas sim fora dele. Porter não funciona como oráculo do século XXI. Caem os muros, as torres, a Bolsa, os ideais, os imperativos, os SsS e, como sempre as carnes, até as lágrimas de amor. Justamente hoje li no El Pais que “todos os dicionários das grandes línguas têm visto a sua queda”[2]. 

O isso cai (ça tombe) se substitui pelo isso gira (ça tourne) do discurso capitalista, e a queda é causada pela própria astúcia desse discurso. É uma hipótese de um colega da ECF, Rodolphe Adam, que fala da física do parlêtre[3] sujeito à lei da gravidade.

Alguns anos atrás, Gérard Wajcman foi curador de uma exposição sobre o que cai no Palais de Tokyo em Paris: Conversations sur tout ce qui tombe-All that falls[4]. Ele considerou o século XXI como o século do que cai, um século de precipitações. Abundantes, desde o zênite, sobre nossas cabeças. Mas isso nem sempre é uma má notícia. A arte contemporânea aposta na queda, no sublime de baixo. Heloisa Caldas escrevia, faz anos, que a arte não só cai, mas recai, na mesma maravilhosa Latusa 17[5] sobre a sublimação, na qual Marcus André Vieira demonstrava a falácia da maravilhosa canção A girar, que maravilha e o Rio começava a escrever sobre sua queda.

Há quedas necessárias: o crepúsculo dos ídolos e a queda do falocentrismo, acho que se inscrevem aí. Um Einfall generalizado e bem-vindo.

A Wikipedia diz que o falocentrismo é uma ideologia. Nós supostamente desenvolvemos urticária contra elas. Sai, Weltanschauung! – dizemos em parco alemão freudiano. De bom grado, dizemos: não é um conceito analítico.

Mas, por essas voltas que a hystoria escrita com ‘y’ dá, parece que foi Ernest Jones quem cunhou o termo. Jogar Jones fora da psicanálise é uma operação mais difícil. Não somente porque Lacan escreve um texto em sua memória: “À memória de Ernest Jones: sobre sua teoria do simbolismo” e lhe dedica uma aula inteira do Seminário 5, As formações do inconsciente[6]. Lembremos o lugar de ‘excelência ímpar’ que Lacan lhe outorga no céu dos limpadores de chaminé[7].

O texto de Jones, apresentado no X Congresso da Associação Internacional em Insbrück, 1927, “Early development of female sexuality”, me surpreendeu. Lacan o cita na página 710 dos Escritos, onde analisa os rodeios de Jones, que chegam a ser patéticos, diz Lacan, por lhe faltar a metáfora, mas que introduzem um girar fundamental que conduz Lacan ao significante.

Uma primeira surpresa foi que o termo falocentrismo aparecesse sob a forma de uma crítica aos próprios analistas, apoiado na clínica de cinco casos de mulheres homossexuais, atendidas em simultâneo, esclarece. Uma segunda surpresa, que Jones quisesse chamar nossa atenção sobre uma ‘falácia’[8] – ele usa essa palavra, literalmente –, em relação à importância do pênis.

Jones reclama de um viés masculino, de uma tendência à parcialidade, ao abordar a sexualidade feminina.

Há uma suspeita crescente e saudável de que os analistas homens foram conduzidos a adoptar um viés falocêntrico dos problemas em questão, a importância dos órgãos femininos sendo correspondentemente subestimada.[9]

Curioso me pareceu também que afirme que isto acontece com a cumplicidade das mulheres, seja porque elas guardam segredo sobre seu gozo, seja porque dificilmente dissimulam a preferência pelo interesse no órgão masculino.

Por outro lado, justifico-me por citá-lo, pois precisaremos dele para o próximo congresso da AMP. A leitura do seu texto sobre o pesadelo é “de uma riqueza incomparável”[10].

Voltando ao falocentrismo, pergunto-me: por que nos defendemos dessa palavrinha? A questão é que um Outro, datado certamente, sexuado curiosamente, segunda ‘ola’ do feminismo, nos atribui tal ideologia, conceito, termo, noção, elucubração, quimera ou como queiram chamar a tal localização do centro no falo. A acusação é emitida de que lado das fórmulas da sexuação? Todos os analistas são falocêntricos ou existe ao menos um que não? Não todos os analistas são falocêntricos e em consequência deveremos ir um por um detectando a anomalia ideológica?

Sigamos com a Wiki descrevendo a tal ideologia, já que a confusão começa nesse ponto. “O phallus, ou o órgão sexual masculino [para a Wiki são equivalentes] é o elemento central na organização do mundo social.”

Se o falo é o chumbo da malha[11] que nos tece, como disse Marcus André Vieira, poderíamos dizer que o falocentrismo nasce caindo?

Quanto ao falo, ele não está em um dos seus melhores momentos, como dizia Miller quando forjava o segundo paradigma do gozo. Muito menos no esplendor do antigo mosteiro do pênis de 1499, em honra ao falo sagrado[12].

Há um senhor, Titterington, que diz que o pênis vive assombrado pelo falo[13]. Gostei disso. A “elevação fantasmática do falo”[14], como a chama Jacques-Alain Miller em O ser e o Um, faz do pênis um órgão mal-assombrado pelo falo semblante. A feminilidade é a aspiração contemporânea, o vento dominante, diz Miller.

Se ele só funciona velado, ele também só nasce caindo. Éric Laurent dizia anos atrás que não existe substância fálica, que o analista deve ser um literato do falo e saber que a substância fálica não é mais do que uma letra que diz nossa hashtag NHRS. Nem mandarim, nem universitário, literato.[15]

Voltando a Miller, gosto muito desse seminário pois ele situa que é na dialética analítica, no discurso analítico, que podemos dizer que o falo dá corpo ao gozo.

Lacan fez do falo um patema no RSI e o ‘tomara que caia’, que é só o nome de um vestido tropical, sensual, é interessante como figura porque está sempre a ponto de cair sem fazê-lo. Só na contingência.

 


[1] Em português não se cai, em francês e em inglês até em espanhol sim.
[2] Darío Villanueva: “El problema está en confundir la gramática con el machismo”. EL PAÍS, 16 jul. 2018. Disponível em: <https://elpais.com/cultura/2018/07/15/actualidad/1531677196_003986.html>.
[3] Adam, Rodolphe, La gravité du désir, IRONIK 02, SC de Bordeaux, Travaux d’Uforca, 2 nov. 2014. Disponível em: <https://www.lacan-universite.fr/la-gravite-du-desir/>.
[4] https://www.palaisdetokyo.com/fr/evenement/all-falls
[5] Vieira, Marcus André, “A girar” e Caldas, Heloisa, “Melancolia e sublimação: um corpo que cai”, Latusa, Rio de Janeiro, EBP-Rio, n. 17, Sublimação: O corpo que cai, 2012.
[6] Lacan, Jacques, O seminário, livro 5: As formações do inconsciente, 12 de março de 1958.
[7] Lacan, Jacques, (1959). “À memória de Ernest Jones: sobre sua teoria do simbolismo”, Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 725.
[8] Jones, Ernest. (1927). The early development of female sexuality. International Journal of Psycho-Analysis, n. 8, p. 459-472. Jones, Ernest. O desenvolvimento inicial da sexualidade feminina. IJP. v. VIII, 1927, p. 461.
[9] Ibid., p. 459.
[10] Lacan, 1962-63, p. 69.
[11] Vieira, Marcus André, Ibid.
[12] Lopes, Janara, O antigo mosteiro do pênis. Disponível em: <http://www.ideafixa.com/post/o-antigo-mosteiro-do-penis>.
[13] Titterington, David, How the phallus haunts the penis. Full frontal male nudity in Hollywood. Disponível em: https://medium.com/@davidtitterington/how-the-phallus-haunts-the-penis-7a367e63a709.
[14] MiIler, Jacques-Alain, L’être et l’un, Cours, n. 4, Orientation lacanienne III, 13, 9 février 2011, p. 9.
[15] Laurent, Éric, “Sobre o desejo”, Versões da clínica psicanalítica, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995, p. 47.