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Pontuações


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 27 de setembro de 2018 - 0 comments

Diferentes eleições de modos de vida e de modos de gozo. Diferentes formas de inscrição do corpo e do gozo com relação ao significante fálico, inclusive recusando-o. É o que nos anuncia Lacan, ao colocar o gozo como ponto central da experiência analítica.

A sexuação diz respeito a uma eleição do sujeito quanto ao gozo, para além das identificações imaginárias e simbólicas[1]. Deste modo, podemos nos perguntar se a proliferação da multiplicidade de práticas e parceiros sexuais dos mais variados gêneros nos traz indícios do impasse com relação à sexuação para alguns sujeitos.

Se do lado masculino da sexuação temos o gozo fálico, finito e localizável e do lado feminino um gozo não localizável, estas práticas seriam tentativas de alguns sujeitos forjarem um corpo como sexuado, mas sem inscreverem-se no significante fálico? Isto seria possível?

Novas soluções podem ser inventadas sem resvalarem no sem limite, uma das possibilidades do gozo suplementar? Alguns sujeitos dispensariam o uso do significante fálico como ordenador? Mostrariam a fantasia, já que esta não vela mais o real com o qual cada sujeito é confrontado?

Quando, por exemplo, uma mulher adota uma multiplicidade de práticas e de parceiros sexuais, dos mais variados gêneros, pode tratar-se aí[2] da encenação da pantomima de uma mulher sobre a sexualidade e a eleição sexuada. A pergunta sobre onde está o falo, ou com quem ele está, pode presidir esta diversidade de práticas, dado o declínio do patriarcado e a destituição da tradição como algumas das consequências das mutações da ordem simbólica[3].

Mas sabemos que às vezes um sujeito nem sequer formula tal questão e sai ao encalço de algo, em uma errância de respostas, acting out e até mesmo passagens ao ato, sem nem saber o que está perseguindo.

Se, em uma pantomima, trata-se de narrar com o corpo, nesta pantomima de práticas e parceiros múltiplos uma mulher oferece seu corpo e nada da palavra. Muitas vezes, montam-se cenas no intuito de responder, mas sem formular uma pergunta.

Algumas mulheres, por não saberem o que fazer com um homem e o que do sexual liga um homem e uma mulher, introduzem outra mulher. A abertura da relação, a prática de swing… podem ser a colocação em cena desta questão. Tentativas de dar um lugar ao homem, mas em relação à outra mulher.

Pode tratar-se, em alguns casos, de uma precariedade da localização fálica e o sujeito fica perdido entre o que poderia vir organizar: o falo e A mulher. Mas, muitas vezes seguem em direção À mulher.

Outros sujeitos podem dispensar algo do sentido sexual, do qual a fantasia poderia ser suporte, e transformam o corpo neste suporte. No entanto, cabe a pergunta: O corpo seria suporte de uma significação ou apenas suporte de um simulacro da sexualidade?

Novas soluções têm sido mais e mais construídas para circunscrever o gozo. O falasser nos dá o testemunho de que a fantasia não organiza totalmente a questão do gozo e, tampouco, o que há de real na exigência pulsional. Há um resto ao qual cabe a cada um fazer uma eleição sexuada para responder ao gozo pulsional. Pois, mesmo quando se extrai do campo do Outro os significantes a partir dos quais se identificar, mesmo que haja inúmeras práticas e parceiros sexuais – nenhum deles responde totalmente, são sempre precários enquanto soluções.

Inúmeras são as questões que podemos levantar sobre esta multiplicidade de práticas e parceiros sexuais, sobretudo, com relação a uma mulher. Também poderíamos levantar outras tantas, inclusive para cada uma das opções de gênero que estão à nossa disposição mais e mais.

“Achar o lugar e a fórmula”[4] na comédia dos sexos não é fácil. Exige muito trabalho de cada sujeito!

 


[1] BRODSKY. G., “A escolha do sexo”. Clique. Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano. N. 2, agosto 2003.
[2] N.A.: No texto “Relações abertas – odisseias contemporâneas”, publicado no Boletim das Jornadas da EBP Seção SP de 2018, #Cupid, trabalho outras questões sobre a mulher e as relações abertas. E sugiro: BROUSSE, M.-H. “A homossexualidade feminina no plural ou quando as histéricas prescindem de seus homens testas de ferro”. Disponível em: http://almanaquepsicanalise.com.br/wp-content/uploads/2015/08/brousse.pdf para trabalharmos este tema.
[3] MILLER, J.-A. “Em direção à adolescência”. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/publicacoes/em-direcao-a-adolescencia/
[4] RIMBAUD. A., “Vagabundos”. Iluminuras. Gravuras coloridas. Iluminuras: São Paulo, 2002, p. 51.