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Falocentrismo


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 10 de janeiro de 2019 - 0 comments


Boa tarde, me reúno a Luiz Fernando e a Angela para lhes dar as boas-vindas, em nome da comissão científica. Além dos integrantes da comissão, agradeço aos dois, a Luiz Fernando pelo convite e por sua disposição a sempre tentar outra coisa, a Angela, incansável, sendo o centro do trabalho de tantos preciosos colegas que fizeram esse Encontro acontecer no clima de um verdadeiro acontecimento. Nossa comunidade, de orientação lacaniana, é exatamente isso, orientada. Tudo se vetorializa em direção a temas que serão o ponto de convergência de eventos, publicações, nesse caso, nossos Encontro Brasileiro. Nas seções da EBP, nas delegações em toda sua comunidade de interesse, vamos retomando referências, repensando, buscando ouvir o que se passa na cidade e trazendo tudo para cá. Meu lugar, aqui, visa situar vocês, a apresentar a vocês como se concebeu esse trabalho prévio ao Encontro e que nos trouxe até aqui, para colocá-los no diapasão do que vai se seguir.

Esse tema conduziu a muitos debates. O que é falocentrismo? O que é falo? E que queda é essa se por todo lado só há mais e mais gente falando grosso? A psicanálise é falocêntrica? Freud sim, Lacan não? Porque os psicanalistas são quase sempre de classe média branca no poder?

A comissão científica montou uma proposta simples, de investigação, a partir de uma declinação do tema em três aspectos. Os dois primeiros se basearam no fato de que quem diz “falo” tanto diz “sexualidade”, como de um regime binário de acesso ao gozo que é também de poder: uns podem algumas coisas, outros não; uns experimentam a vida no corpo de um modo, outros não. Para esses dois primeiros eixos pensamos em títulos bonitos, mas deixamos no mais simples: Eróticas e Poderes.

Quem diz erótica fálica e poder fálico, porém, sabe o quanto esse erotismo e essa ação não dão conta da vida que levamos no corpo, necessariamente, de algum modo, fracassam. Por isso propusemos um terceiro eixo: Sintomas. Cada um desses eixos se tornou uma plenária e a elas acrescentamos uma quarta, que trará o mais rico que temos, as contribuições de cada um de vocês para situar o que anda acontecendo em sua prática sobre o tema e que foram reunidas em nossa manhã clínica, colhendo sessenta e três trabalhos dos cento e seis que recebemos.

Ao final, o passe, nosso modo de demonstração, por uma lado, e de mostração, por outro, através do testemunho, do que é deixar-se surpreender pelo que do vem do inconsciente e abala as identidades hegemônicas do ego, e que o conduz a se reconfigurar. Mais, ainda, quando o processo é levado às suas últimas consequências, chega-se a um ponto em que é preciso arriscar-se a nomear, como der, o que até então insistira sem nunca consistir e que o próprio inconsciente só pode apresentar sem dizer. O passe responde em ato à pergunta da bienal de São Paulo de 2014 e que uma das nossas preparatórias tomou por título: “Como falar de coisas invisíveis?”

Tudo ia bem, até que, bem aqui ao lado, e mesmo aqui, nesse hotel, o Brasil decidiu situar o epicentro de uma restauração rígida de um projeto de poder que, mais que nenhum outro, merece o adjetivo falocêntrico. Mantivemos nosso título, mas tivemos que modular a ideia de uma “queda” e, com isso, mudamos quase tudo na forma e estilo das plenárias, além de acrescentar às já descritas uma mesa sobre as redes sociais e sua relação com a verdade.

Este é nosso Encontro. Quero, então, para abrir suas portas conceituais retomar os pontos principais do debate até aqui em seus elementos conceituais. Achei melhor recapitular seus pressupostos sob a forma de proposições afirmativas, de aparência dogmática. Tomem-nas bem mais como pontos sujeitos à discussão, os que mais ressaíram do debate da comunidade. Em alguns deles, ela toma posição clara, em outros, é nosso trabalho nesses dias que, espero, nos ajudará a fazê-lo. A lista, vocês verão, tem o aspecto de uma “ascensão e queda” do falo (ele é sempre assim), mas, sobretudo, aponta para o próprio da psicanálise lacaniana que ex-siste, existe fora, mas insiste de dentro, e que seguirá sua lida com o real da psicanálise com ou sem falocentrismo.

1. O falo é uma imagem de completude

Toma-se uma parte do corpo que de vez em quando se enrijece e dá prazer e o órgão é fixado em sua ereção. O pênis, extraído da natureza do corpo, passa a ser colocado, dessa forma, em totens, vasos etc. Torna-se o falo. A vida que sacudia esse órgão ocasionalmente, agora está eternizada e totalizada. É o falo do corpo dos deuses, eternamente ereto, imaginário. Portanto, que fique claro: o falo nunca foi o pênis, ele é apenas o pênis “bem na foto”.

2. O falo é um operador de negativação.

A crença de que esse falo ereto existe, porém, tem efeito sobre todos os outros corpos, mortais, o de um indexador de negativação. Afinal, todos os outros órgãos, eretos ou não, nunca estão o tempo todo assim tão vivos. São marcados por uma falta que Freud chamou de castração e que Lacan formalizou: ela é uma lei geral de negatividade e não temor de mutilação. 

3. O falo é por natureza ambíguo

Completude ou negatividade? Falo imaginário ou falo simbólico? Falo positivo, poderoso ou falo em seus efeitos, significante da falta, do desejo? É impressionante como todos só tem olhos para o primeiro, mas são, na verdade, inseparáveis. Foi preciso Freud e Lacan para torar claro o segundo aspecto, de negativação do gozo (o que não quer dizer que eles o tenham promovido como via correta para a sexualidade).

4. O falo é um operador de partilha

O falo é um operador de negatividade, mas a distribui de maneira distinta e binária. Uns acreditarão tê-lo no corpo, ao alcance da mão, serão os ditos masculinos. Não é tão bom quanto parece. Eles, mais que ninguém, saberão que o deles não é isso tudo, que à diferença do falo imaginário dos deuses, o deles costuma estar flácido e apenas de vez em quando ereto e por isso serão para sempre assombrados com o medo do fracasso. Outros serão levados e crer que não o têm, aquela coisinha que fazia sua felicidade masturbatória infantil era um engano, que eles precisam, para gozar, passar por outro corpo. Esse outro modo de negativação fálica em seus corpos, mais explícito, levará, porém, a um gozo bem menos limitado quando encontrado. Sem medo de perder o que já não têm, esses seres serão mais intensamente “tudo ou nada”. Serão ditas e feitas mulheres.

Ambos seguirão esse dispositivo de negativação da vida. Localizada, próxima, mas sob ameaça para uns. Deslocalizada ou localizada no Outro, para outros. O falo (em seu aspecto simbólico, lógico) é um distribuidor de negatividade, de desejo, de modo complementar.

4. Falocentrismo é assumir que apenas o pênis pode ser o falo

Só os que tem pênis podem ser machos? Podem ser reconhecidos por esse misto de ação e covardia que caracterizaria a masculinidade? Freud já dizia que não. Basta ter atravessado o complexo jogo de interdições e proibições em que se constituem o que teorizou como complexos de castração e de Édipo com a certeza de que se tem o gozo ao alcance da mão para ver seu ser recoberto sobretudo pelo gozo fálico, localizado e menor com relação ao que é a vida no corpo.

A equação falocêntrica é a superposição pênis e falo, como uma só e mesma entidade, garantida pela evocação de um terceiro elemento: a natureza, a biologia, ou a bíblia. Seria da natureza do homem ter acesso direto ao poder e ao gozar e da mulher um acesso indireto e seria da natureza das coisas que só houvesse esses dois tipos de formas de vida sexuada, o masculino e o feminino.

Mas…

Nos últimos tempos essa naturalidade da trinca falo = pênis = natureza foi seriamente abalada. Nosso título propõe “queda” e não “abalo”, mas o tema do declínio oculta a importância e violência da reação a essa queda. No caso do Brasil, há uma evidente exigência de restauração da ordem fálica, que ganhou o poder. Isso porém, só ratifica que houve abalo.

Como este abalo aconteceu? Porque? Muitas e muitas causas poderiam ser evocadas. Que tal essas duas?

  1. A Reprodução Assistida esvazia a necessidade da cultura de sacralizar (naturalizar) a diferença macho e fêmea, o que leva a um abalo na função da família como sede da diferença binária entre sexos.
  2. O Google, como paradigma de um novo modo de relação com o saber, infinitamente ali, e infinitamente disponível esvazia a necessidade da diferença de gerações para que o saber da experiência, acumulado, por uma geração possa ser transmitido à outra.

Por essas razões ou por outras o fato é que “pai e mãe” e “homem e mulher” deixam de ser vitais para a sobrevivência da espécie. Não foi culpa do PT.

6. Há vida fora da partilha fálica do prazer e do poder

Começam a explodir gêneros, composições novas. Em vez de “sim” ou “não”, distribuindo a falta de dois modos complementares, surgem explorações, variações, combinações. Em vez de um poder central excluindo os ininteligíveis para as margens e legislando sobre a vida, uma galáxia de particularidades de baixa coesão, instáveis, tensionadas, ganham cada vez mais expressão no tecido social. Elas precisam contar com contratos e acordos para coexistirem, pois fundam uniões mais instáveis que estáveis, algumas hiper-rígidas igualmente.

7. O gozo do falo deixa de ser negatividade e torna-se paranoide 

Dada essa explosão de galáxias e tribos, a tribo fálica poderia ter ficado como apenas uma entre outras, o falo seria apenas uma possibilidade de gozo entre outras, com todo seu valor. Não foi o que aconteceu. Os crentes do falo mudaram de status. Antes, os crentes do falo eram cômicos, porque de alguma maneira, aqui e ali, via-se como nem tudo da vida podia ser recoberto, saturado pelo falo.

Um falo em permanente ereção fazia rir, agora não. Reunindo-se ao mais imaginário da religião (Deus acima de todos) e à boataria das redes, nessa inflação imaginária dobrada, espalha-se um regime de crença que só se entende quando abordado a partir do que Lacan desenvolveu sobre a psicose. Basta lembrar: onde foram parar os sujeitos divididos à época das eleições? Como entender aquela certeza inabalável diante das mais evidentes evidências, irrefutável, senão assim?

Diz-se que se trata de uma recusa da diferença. É dizer pouco, pois seria preciso dizer qual diferença é recusada. Melhor afirmar que é uma recusa de tudo o que não for inteligível, tudo o que é não-lugar, que é sem utilidade direta. Não se trata de excluir alguém, de jogá-lo no lixo de um regime universal, de um “Nós, o Todo, menos ele”. Trata-se mais de um “Tudo o que não seja nós, não existe”. Nesse sentido, não é uma recusa e sim uma lógica de extermínio.

Entendo porque tantos buscam nomear a violência própria dessa tribo do falo paranoide usando a expressão “pulsão de morte”, mas desperdiça-se um conceito precioso ao usá-lo dessa forma, como epíteto moralizante. Afinal, a pulsão de morte para Freud faz parte da vida, só é agressividade, pulsão de destruição, em um segundo tempo.

8. Uma análise vai na contramão da falicização do ego

Quem precisa de identidade estável é o ego. A cultura falocêntrica propõe duas formas básicas para ela. A eurocêntrica, tem proposto algumas outras mais (57 gêneros no facebook americano). Seja como for, do ponto de vista de Freud, haverá sempre uma principal para a coesão do eu. Freud nunca propôs que ela devesse ser necessariamente fálica. O essencial é que o analista trabalhe com o inconsciente que é o reino de fixações libidinais polimorfas, sem gênero. Uma análise é se expor à multiplicidade libinal do inconsciente para reconfigurar a unidade do ego.

9. Uma análise anda melhor em meio à diversidade.

Digo “diversidade” para não dizer “diferença”. Ao menos não a diferença em um sentido menor, de uma diferente relativa, como propõe Romildo. Em lugar da diferença relativa , a diferença absoluta a diferença como necessidade de abertura. Uma análise promove e floresce na vigência da diferença absoluta. Da ideia de haver diferenças. Ela está do lado da diversidade é porque lida com as múltiplas fixações libidinais que constituem o inconsciente. Do sexual como lugar da inscrição do múltiplo, polimorfo, variante, o que Lacan formalizou como nãotodo. Há um erotismo do não todo? Do que não se regula pelo falo? Sim! É esse que promove o contágio que sustenta a psicanálise, como peste, até hoje. A psicanálise não é conquistadora, mas contagiante.

10. A psicanálise está, por razões estruturais, do lado da democracia

Não é obrigatório para que uma análise aconteça o estado democrático de direito, de um “para todos” da constituição, de um “ninguém está acima da constituição” (com Deus só correndo por fora). Sabemos que a psicanálise já sobreviveu a uma ditadura.

Afora essas questões conjunturais, uma análise é um laboratório de democracia no nível individual, para usar uma expressão emprestada de Sidi Askofaré. Tensões, conflitos, pactuações, não é o que ocorre entre as pulsões do inconsciente e o eu no âmbito da aparato psíquico?

Além disso, se ela é da democracia é porque é o espaço em que uma fala aberta se enuncia. Para isso é preciso um espaço naotodo, tal como o é o espaço democrático no plano social. Não uma fala livre, que só existirá como utopia. Mas aquela em que o sujeito não apenas culpa ou se queixa do Outro, mas sim acerta as contas com seu destino.

11. Não há analise sem memória, mas uma análise é criacionista

Uma análise não lida com coisas de outro mundo, mas com aquilo que cabe na memória. Mesmo quando remete a outros mundos, nossa memória e nosso pé no chão. Ela, de certo modo, é infinita, mas não do infinito do poder imperial, sempre mais e mais ao alto e além. Ela é mutante, sempre pronta a trazer novidades, parece ilimitada, mas sempre contida no espaço da história de uma vida. É como um infinito interior, mais modesto.

Dessa saco sem fundo, saem lembranças inesperadas, fragmentos de sensações e sentimentos que se compõem ao modo da bricolagem, ou da colagem surrealista de que fala Lacan no Seminário 11. A fala analisante vai reunindo esparsos disparatados e com eles recria o eu.

Essa é a clínica do enodamento, do sinthoma, da constelação de uns sozinhos. Ela inclui não apenas montagens, gambiarras e geringonças mais ou menos artísticas, mas também nomeação. Um dizer que nomeia o não existente, o que a bricolagem traz ao mundo sem localizar.

Mais que nunca é preciso fazer o que fazemos, fazermos essas coisas invisíveis existirem, como o fazem os coletivos, os artivistas, pois o não-lugar, onde mergulham para fazer seu trabalho, os que lidam com a loucura e com a arte está sob ameaça. Que nossa política do dizer seja assim uma política dos nomes e dizeres do não-lugar como creio que veremos vir à luz certamente nesses dias de Encontro.