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Sintomas

Galáxias e constelações

Lacan, no Seminário 2, dirá que “as estrelas são reais, integralmente reais, pois não há nelas absolutamente
nada que seja da ordem de uma alteridade para com elas próprias,
pois são pura e simplesmente o que são”.

(LACAN, 1954-55, p.300)

 

Essa definição dos anos cinquenta não deixa de nos remeter à definição lacaniana posterior do sintoma como o que há de mais real.

Sabemos que para Freud o sintoma coloca em jogo um sentido inconsciente que pede uma interpretação, porém ele também pôde se deparar com o que persiste do sintoma, mais além de sua face de verdade.

Interessa-nos aqui investigar essa dimensão do sintoma que, como as estrelas, está sempre no mesmo lugar, já que com a queda do falocentrismo, é esse núcleo sintomático, que testemunha a incidência da palavra sobre o corpo, que prevalece na subjetividade de nossa época.

Miller (MILLER, 1994-95, p.111) propõe que o falo, assim como ele é introduzido por Lacan no Seminário 4, constitui um tipo de retranscrição significante do conceito freudiano de pulsão. A pulsão em Freud é aquilo que liga o corpo à linguagem: um estímulo cuja fonte é o corpo e que se representa no psiquismo. (FREUD, 1905, p.171)

Através da operação metafórica temos na possibilidade de substituir um significante por outro, por exemplo, o medo do pai pelo medo do cavalo, na versão freudiana do caso de Hans, essa retranscrição significante. Porém, este pai que, para Freud seria naturalmente castrador, para Lacan é insuficiente na sua função de separar a criança do lugar de falo materno. O Seminário 4 nos propõe uma leitura do caso Hans que atualiza algo que Freud compreendeu apenas quando se voltou para a questão da sexualidade feminina nos anos 30: que a criança toma para a mãe uma significação fálica.

Portanto, Lacan lança uma nova luz sobre a questão da primazia do falo, já contestada pelos pós-freudianos, sobretudo pelas analistas (Melanie Klein, principalmente), introduzindo uma duplicidade da relação do sujeito ao falo: o ser e o ter. No Seminário 4 inicia-se uma ampliação do conceito de falo onde a dimensão pulsional do sintoma se reduz à significação fálica (MILLER, 1994-95, p.111). Esta ampliação culmina no texto “A significação do falo” de 1958 e encontra seu termo, em 1962 na formulação do estatuto do objeto a que se inicia no Seminário 10, A angústia, onde Lacan começa a investigar o que não se representa, o que escapa à significação fálica.

A vertente interpretativa da psicanálise que busca escutar o sentido do sintoma já se mostrou insuficiente desde Freud, sendo inclusive esse o ponto que a diferencia das psicoterapias. Portanto, ler o sintoma privando-o do sentido se torna ainda mais pungente na época do “individualismo democrático”.

Com o progresso das democracias evidencia-se o que Miller nomeou como “discórdia do discurso universal” (Apud BROUSSE, 2017, p.1), fazendo explodir a multiplicidade das formas de laço social e de modos de gozo. Não mais governado pelos ideais universais do pai, o mestre contemporâneo propõe, em seu estilo capitalista, que cada um encontre seus objetos de consumo que possam recobrir o que do gozo surge sempre furado. Temos assim, nessa multiplicidade, a constituição de constelações onde cada estrela busca brilhar sozinha.

A noção de constelação não passou despercebida para Lacan, o termo aparece em alguns momentos de seu ensino. Talvez possamos destacar dois deles como contribuições para a construção de uma nova noção do inconsciente e, consequentemente, do sintoma.

Ainda em 1958, Lacan se refere à “constelação de insígnias que constituem para o sujeito seu Ideal do eu” (LACAN, 1958/1998, p. 686). Miller interrogará em seu curso Os signos do gozo [Ce qui fait insigne], por que naquela ocasião Lacan utiliza o termo constelação e não cadeia, por que ele se refere a insígnias e não a significantes. Assim, como nos lembra Márcia Rosa, os significantes civilizatórios, além de representarem o sujeito no campo do Outro, podem se transformar em insígnias que funcionam fora da cadeia significante, tout seul. (ROSA,2009, p.3)

Tais significantes soltos, que operam fora da lógica simbólica binária, ganham o estatuto de letra, traços tomados Um a Um e que acabam por remeter ao que ressurge da temática constelar no momento mais tardio do ensino de Lacan. Em Lituraterra, texto da década de setenta, veremos que a noção de enxame vem substituir àquela de constelação. Temos então o enxame de S1s que coloca em questão a vertente representativa e comunicativa do inconsciente.

Passamos do inconsciente discursivo, onde a articulação entre significantes permite que se trate o enigma do gozo pelo sentido, ao inconsciente escritural, onde o significante sozinho marca o corpo e produz um gozo que se reitera. E essa iteração do gozo determina de forma singular o núcleo sintomático. Os sintomas, assim como as estrelas, são o que são, e é esse sintoma-estrela que explode em sua diversidade compondo a galáxia das subjetividades contemporâneas.

Estamos nos limites dos poderes da palavra, já que “os corpos parecem se ocupar de si mesmos” (LAURENT, 2012, p. 1) e se algo se apropria deles é uma linguagem tecnocientífica que os recorta com suas mensagens inequívocas.

Contrastando com a apologia da autenticidade que, domina a cena contemporânea, onde as pessoas se vendem como diferentes uma das outras, o que se constata é essa literalização do mundo que acaba por produzir o igual, ou mesmo diferenças, apenas comercializáveis (Chul-Han, B., 2018).

Na galáxia da subjetividade de nossa época, o que pode a psicanálise, diante do silêncio auto-erótico do sintoma em sua versão de estrela? Como o analista de orientação lacaniana poderia ler o “irredutível em seu absoluto de significante” (LACAN, 1957/1998, p. 447) e recolher de sua prática o que faz com que esse irredutível se retire do deserto do gozo?

Nessa direção, torna-se imprescindível tomar as elaborações tardias de Lacan, onde o falo não aparecerá mais como resultado da metáfora paterna e como significante da falta, mas como obstáculo à relação sexual ou mesmo como “uma falácia que testemunha do real” (LACAN, 1975-76, p.101)

Portanto, nos valendo de tais referências, como pensar a clínica da neurose e da psicose a partir do falo pós-edípico? Qual o lugar da transferência e da interpretação analítica num mundo onde prevalece o brilho fake das estrelas?

 

Helenice de Castro e Lúcia Grossi

 

 


Referências:
BROUSSE, M.H. Democracias sem pai. In: Lacan Cotidiano n. 759, 2017 – fragmento em português. P.1.
CHUL-HAN, B. Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização. In: El    país online, Caderno de Cultura, 7 de fevereiro de 2018.
FREU S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro Imago, vol VII, p 171, 1972.LACAN, J. (1954-55/1985) Do pequeno ao grande Outro. In: Lacan, J. O Seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. P. 300.LACAN, J. (1957/1998) A psicanálise e seu ensino. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. P. 447
LACAN, J. (1958/1998) Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: Psicanálise e estrutura da personalidade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. P. 686
LACAN, J. (1975-76/2007) De uma falácia que testemunha do real. O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. P. 101-114.LAURENT, E. Falar com seu sintoma, falar com seu corpo. Argumento para o VI enapol (22 e 23 de novembro de 2013). Disponível na internet (acesso em 05 de fevereiro de 2018): http://www.enapol.com/pt/template.php?file=Argumento/Hablar-con-el-proprio-sintoma_Eric-Laurent.htmlMILLER, J.-A. Silet, Rio de Janeiro Zahar, 2005, p. 111.
ROSA, M. Da cadeia significante à constelação de letras: os signos do gozo. In: Ágora: Estudos psicanalíticos. Vol. 2, n. 1. Rio de Janeiro, 2009. P. 3