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Poderes

Manos, Mandos e Desmandos

Quais serão os arranjos de vida e gozo decorrentes da queda do falocentrismo no plano político e social? Como a prática analítica os recolhe e acolhe? Quais as consequências para a própria psicanálise em sua intensão e extensão? São através de perguntas como essas que este eixo convida à discussão e à investigação.

O declínio do pai e do falocentrismo é correlato da mutação das relações de poder e hierarquia. Nova ordem política e novas configurações familiares estão surgindo. Para o melhor e o pior.

O fim do regime “Imperial”, de um soberano unificador, dá lugar a novos arranjos em que as redes imperam, desconhecendo muros e esvaziando fronteiras. A globalização, já prenunciava Lacan, não homogeneíza a relação entre os homens. Ao contrário, no mundo em rede assistimos a uma expansão das tribos, das comunidades de gozo, grupos de autoajuda, seitas, religiões, segregações e auto-segregações. A cicatriz da evaporação do pai se incarna em uma segregação ramificada que multiplica as barreiras.

De exércitos a empresas de um homem só, a fantasia de autonomia está bem servida pelo mercado e tecnociência.

A própria noção de representação coletiva está em decomposição. A descrença nos representantes é também um descrédito no centrismo do falo como ordenador social.

Se isso pode recair em uma apatia por um lado, também é o que incita novas formas de pensar e fazer em coletividades mais fluidas, fugidias e não menos pujantes. Nas cidades, nas escolas, no trabalho e inevitavelmente, nas redes, ouvem-se ecos dessas novas formações.

No plano da família, a crença em um pater certus se dissemina graças ao avanço da ciência, exames de DNA e técnicas de reprodução assistida. Elas contribuem para esvaziar o lugar simbólico do pai ao velar o imponderável da transmissão geracional, mas também para o surgimento de novas “parentalidades”, nas quais o casamento de pessoas do mesmo sexo é apenas a fração mais evidente das múltiplas formas que o viver coletivo assume.

Preocupa, porém, a costura de um laço social onde o regime dos afetos recrudesce a armadura de um individualismo de ferro. Os mandos e desmandos de quem está no poder encontram na face mortífera dos fascismos e fundamentalismos seu contraponto mais violento. Em lugar da hierarquia, os antigos filhos da horda freudiana, agora sem pai, parecem muitas vezes se agrupar como “manos”, irmãos reunidos por algum ódio comum.

O poder é sempre poder de mobilizar “corações e mentes”. É nessa dimensão, dos corpos afetados, que se verifica o real mobilizado pelos semblantes fálicos. Quando esses semblantes se dissociam da crença no pai, na lei e na ordem, a que servem? De que modo localizam o gozo?

Um espectro amplo de assuntos pode ser colhido pela prática do analista neste prisma: o gozo da sujeição em suas variadas manifestações; as consequências para o falasser dos rearranjos dos semblantes de poder e de autoridade nas famílias e coletividades; a segregação do gozo do semelhante e as auto-segregações do gozo estranho em si mesmo; os estatutos da violência, do assédio, da injúria para cada ser falante; os imperativos do “compartilhar” e do “curtir” e suas consequências sintomáticas.

Isso posto, o analista considera a dimensão do gozo na vida política, tanto do gozo fálico, quanto de um gozo Outro, opaco, muitas vezes dito feminino, que se localiza, a partir de Lacan como acontecimento de corpo. Como propõe Eric Laurent em O avesso da biopolítica, ao centrar a perspectiva do inconsciente político no sinthoma como acontecimento de corpo, e não sobre uma identificação, aceitamos seguir Lacan na zona em que o sujeito se mantém fora da garantia da ordenação paterna. Pode ser a porta aberta a um sem número de versões do Outro delirantes e mortíferas, mas igualmente para que o sinthoma, como gozo singular, deslocalizado mas corporal, possa definir a escolha de cada um, na vida e na polis.

 

Angela Bernardes
Luiz Felipe Monteiro