Rolar para cima

Eróticas

Desejo e gozo quando a falta não dá as cartas

“…só os homens fizeram da sua atividade sexual uma atividade erótica”

(George Bataille)

 

O que dizer da natureza do falo? Primeiramente, que ele não é natural; ele é consequência do que há de mais humano, da marca da linguagem no corpo. O falo adquire seu valor na experiência analítica – experiência de fala – como semblante, colocando-se além de sua consistência imaginária associada ao órgão. Ele decorre da subjetivação da “perda” que o significante impõe ao ser falante e apresenta-se como significante da falta na mãe enquanto marca inicial de algo que deveria estar lá e não está, que deveria ser e não é. Assim, o falo adquire o estatuto de significante da própria falta. Se há falta, supõe-se que algo poderia completar isso que não se tem, ou que não se é. O significante fálico torna-se, então, significante do desejo ao mesmo tempo que serve como véu que esconde ou dissimula a falta, fazendo crer que pode haver algo ali onde não há.

Contudo, como indica Miller[1], o falo lacaniano só pode ser isolado realmente em sua dimensão de semblante quando Lacan pontua que o falo é semblante também quanto ao gozo.

No Seminário 18, Lacan precisa a função do falo nos seguintes termos: “…o real do gozo sexual enquanto destacado como tal: é o falo”[2]. O falo como semblante destaca, recorta o real do gozo sexual e joga sua partida na vida erótica. A partir desse momento do ensino de Lacan o significante fálico indica o que não há, a negatividade da falta, mas também destaca uma positividade, faz semblante de um gozo.

Articular o significante fálico ao gozo não se converte em uma solução por excelência. Em todo caso, tal solução garante ao sujeito o gozo masturbatório, ou “gozo do idiota”, como precisará Lacan alguns anos depois em seu Seminário 20. O gozo fálico recorta parte do gozo e o faz entrar no discurso. Ele dá corpo ao gozo, mas não recobre a totalidade do modo de gozar do ser falante.

A partir desta perspectiva, que o falo dê as cartas não quer dizer que exista alguma espécie de garantia na vida amorosa; ao contrário, o falo se apresenta muito mais como obstáculo[3], porém, em sua função de semblante, permite ao gozo condescender ao desejo. Isto é, articular isso do que se goza, recortá-lo em um parceiro que se faz envelope desse gozo.

Como a função fálica consegue efetivar a subjetivação do corpo a partir da falta, o significante fálico surge como meio de representação da satisfação permitida, “autorizada”, e da escolha, no nível inconsciente, do parceiro amoroso.

O falo, quando dá as cartas, apresenta-se como semblante, cuja função intervém na relação entre os sexos nas condições da escolha do parceiro sexual, homo, hétero, poli…, fundada na presença ou ausência, na subjetivação da falta que ele encarna.

Mas o que seriam os encontros com o gozo nas situações em que o falo não dá as cartas? Se consideramos o tema do nosso eixo, o fato da falta não dar as cartas na vida amorosa pode ser considerado tanto na dimensão da foraclusão (generalizada inclusive), quanto, simplesmente, por não ser levada em conta como organizador da vida erótica. Neste ponto, é importante retomarmos que nosso eixo se situa no marco do XXII Encontro Brasileiro que tem por título geral “A queda do falocentrismo”, isto é, o declínio da centralidade do falo como referência epistêmica e fundamentalmente clínica. A pergunta que se apresenta, portanto, recai sobre o estatuto do falo no caso a caso e sobre a forma como cada sujeito consegue, em análise, dar um lugar ao real do gozo no encontro com o corpo do Outro, servindo-se ou não do falo. O encontro contingente pode permitir ao sujeito ir além do falo e abrir a via para uma possibilidade sintomática[4], via inédita para cifrar a inexistência do significante que represente a totalidade do gozo, mas que se coloca em jogo no impossível do encontro entre os sexos.

A clínica contemporânea nesse ponto nos ensina – e é fundamental estarmos dispostos a nos deixar ensinar, sem reduzi-la à lógica fálica, considerando o real do gozo na organização da vida erótica, seja com um parceiro concreto ou virtual, pela via fantasmática ou não, com uma cena fixa ou um arranjo sempre singular. A questão que se abre é: O que faz função de véu, de semblante ou de destaque do real do gozo sexual quando o falo não entra no jogo? Ou de que maneira o falo pode ser um véu na vida amorosa contemporânea, quando não está mais estabilizado pela metáfora paterna, mas confrontado à multiplicidade dos modos de gozo? Ou ainda: É sempre preciso um véu?

O analista, advertido do engodo da lógica fálica, está atento à montagem que o analisante constrói para produzir algo novo que escape à determinação significante[5] e possa funcionar como invenção singular que torne suportável o real em jogo em uma parceria sintomática. Veremos o que a clínica nos ensina em nosso Encontro.

 

Nohemí Ibáñez Brown e Cynthia Nunes de Freitas Farias

 

 


[1] MILLER, J-A. De la naturaleza de los semblantes. Buenos Aires: Paidós, 2001, p. 267-8. Pode ser consultada também a interessante entrevista a Pierre NAVEAU sobre os cortes epistêmicos com relação ao falo ao longo da obra de Lacan e as considerações clínicas desses cortes. NAVEAU, P. La comédie du phallus, La cause du désir, 95:25-32, abril, 2017.
[2] LACAN, J. O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p. 33
[3] LACAN, J. O seminário, livro 20: Mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 15-16
[4] CASTANET, H. Homoanalizantes: Homosexuales en análisis. Olivos: Grama ediciones, 2016, p. 19-33.
[5] DESSAL, G. Comentario. In: El amor en las psicosis. Dirigido por J.-A. Miller. 1ª ed. Buenos Aires: Paidós, 2006, p. 21.