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Editorial Boletim Polifonias #06


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 27 de setembro de 2018 - 0 comments

A proposição do tema do XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: “A queda do falocentrismo: consequências para a psicanálise” tem sido uma oportunidade para verificar como o conceito de falo encontra no último ensino de Lacan um tratamento que o aproxima do registro do real. A queda do falocentrismo não deixa de ser um ângulo para verificar a incidência do falo quando este não está necessariamente a serviço da significação ou da “justa medida” entre o gozo e o desejo. Os textos do boletim Polifonias número 6 estão em sintonia com essa apreciação e tomam do ensino de Lacan, da prática analítica e do horizonte de nossa época elementos ricos para uma apreciação do tema que nos convoca.

Nos textos da rubrica Disciplina do Comentário, Ram Mandil e Maria Silvia Hanna dedicam-se a esmiuçar dois momentos das elaborações de Lacan sobre o falo a partir dos anos 70. Hanna trabalha uma citação do Seminário 20 onde Lacan comenta sobre o caráter contingente da função fálica. Mandil, por sua vez, se pauta em uma citação do Seminário 23 onde Lacan expõe a tensão entre o falo e o real. A clareza e precisão dos textos elucidam o que há de atual na produção de Lacan à luz da prática clínica como ela se apresenta nos dias de hoje.

Esta pertinência clínica é também verificada nas contribuições de Patrícia Badari e Rosane da Fonte para a rubrica Pontuações. “A multiplicidade de práticas sexuais e o significante fálico” é o título escolhido por Badari para trabalhar a seguinte hipótese: a proliferação da multiplicidade de práticas sexuais são tentativas de alguns sujeitos forjarem um corpo sexuado fora da inscrição do significante fálico? Nessa esteira, seu texto avança com esse e outros questionamentos que instigam pela atenção clínica sobre as diferentes maneiras de circunscrever o gozo quando o falo não é, necessariamente, o mediador entre gozo e desejo. “O coaching na queda do falocentrismo” é o título do texto de Rosane da Fonte. O coaching é um patrocinador de orientação para o sujeito, que encontra ali um suporte para uma identificação fálica apreciada por uma ordem de ferro fiel à lógica do mercado. da Fonte busca ler tal oferta através do conceito de “nomear para” o que se mostra muito preciso, especialmente  quando a autora se refere aos possíveis efeitos do encontro com um analista quando estas identificações rígidas falham.

Fabiola Ramon apresenta na rubrica Radar na Cidade o livro “Falo de Mulher” da autora Ivana Arruda. “A dubiedade do título revela diversos aspectos em relação à localização da mulher no discurso”. Esse é por sinal o destaque conferido por Ramon quando lembra com Marie-Heléne Brousse que a causa feminista atual é, sobretudo, a palavra da mulher. Trata-se sobretudo do poder fálico de falar. O texto é um convite à leitura de um livro provocativo que através de recursos como a ironia e o humor buscam apontar aquilo que escapa às estereotipias dos semblantes femininos.

O boletim ainda conta com uma passagem do texto de orientação “A anatomia e seus destinos” de Marcus André Vieira. O pequeno trecho é um aperitivo para aqueles que ainda não conhecem o texto pautado por uma apreciação sobre o que pode suscitar uma análise em termos de deslocamento e rearranjo com o próprio destino quando nela aparece uma fala que não tenha o Outro como mira.

Antes de encerrar vale o convite para visitarem a rubrica Entrevistas; neste boletim destacamos a participação de Jorge Forbes. Em sua fala Forbes comenta sobre o tema do Encontro Brasileiro pontuando sobre as incidências na clínica analítica da queda do padrão vertical de constituição do laço social.

Os sapatos entre nós da instalação do artista Chihalu Shiota ilustrada na foto do nosso boletim dão o toque final para encerrar o convite à leitura prazerosa dos trabalhos aqui elencados.

Luiz Felipe Monteiro
(pela Comissão do Boletim)