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Editorial Boletim Polifonias #05


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 9 de setembro de 2018 - 0 comments

O que cai e o que queima

Polifonias 5 traz a marca da retomada das questões que separam Lacan dos pós-freudianos quanto à questão do falo. Faz interrogações poderosas em torno do falocentrismo, sua ascensão e queda. Retoma especialmente, nas elaborações de seus autores, as teses de Ernest Jones, principal teórico da chamada oposição ao falocentrismo de Freud, questão importante para os teóricos pós-freudianos e cuja crítica está nos fundamentos da leitura lacaniana de Freud.

Elisa Alvarenga, Marcela Antelo e Stella Jimenez, ao retomarem a crítica de Lacan à crítica de Ernest Jones ao falocentrismo, demonstram que o suposto falocentrismo de Freud se fundou na confusão entre pênis e falo, logo, podemos nós supor que foi uma invenção dos pós-freudianos.

Elisa Alvarenga pergunta: por que Lacan considera que a crítica de Jones ao suposto falocentrismo de Freud foi fecunda? Explora os caminhos aonde essa pergunta conduz e aponta onde ela chega: “é porque o falo não está onde é esperado, exigido,…, ele só aparece como falta”. Ela nos diz: o que suporta o desejo não une sexualmente.

Nesta mesma linha, Marcela Antelo se pergunta sobre o falocentrismo, quase fazendo-o equivaler à sua queda, tomando o pênis contemporâneo como “um órgão mal-assombrado pelo falo semblante”…numa bela alusão, é o “tomara que caia”, cai mas não cai, ou como dizia no título um antiquíssimo programa de humor, “balança mas não cai”…

Stella Jimenez, seguindo em outra via, traz uma boa definição do falocentrismo como a própria confusão entre falo e pênis e nos deixa a pergunta: então “o que é o gozo fálico, aquilo que produz todos esses significados?”

Assim, após a leitura desses trabalhos, ousamos deduzir, não sem alguma tautologia e algum exagero, que eles, cada um a seu modo, e por um diferente prisma, nos indicam que o falocentrismo é uma invenção do antifalocentrismo pós-freudiano, portanto, é, para além de uma divergência, um erro.

Last but not least, Rodrigo Lyra se pergunta sobre as consequências da fragilização do Simbólico na proliferação de falas na internet que, “na falta dos instrumentos que davam eficácia ao funcionamento simbólico do falo”…” tende à radicalização, sem mediação que não seja, por exemplo, a medida da quantidade de “likes”. Partindo do alerta de Lacan na sua crítica à IPA, ele diz, “se o ser que pensa não é sem pensar como questão de seu sexo”, o “lugar de fala” contemporâneo não seria sua tradução imaginária, ao dar consistência fálica à inconsistência que justamente Lacan introduzira na fala?

Essas interrogações preciosas, que retomam a história da teoria psicanalítica, nos chegam no momento em que acabamos de assistir as chamas tomarem um precioso museu no Rio de Janeiro, e seu acervo ser em grande parte reduzido a cinzas. Esse acontecimento, que nos espanta com sua força de real, nos força a extrair da surpresa o esforço do luto e da reconfiguração dos semblantes. Assim é que dessa queima, que é também uma forma de queda, restaram fragmentos, resíduos que resistiram ao fogo e de que damos testemunho com a foto do meteorito de Bendegó e com a bela e triste imagem com que Regina de La Roque reinscreve pela arte essa tragédia na vida, e que gentilmente nos cede.

Cristina Duba
(pela Comissão do Boletim)