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Disciplina do Comentário


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 27 de setembro de 2018 - 0 comments

“O único real que verifica o que quer que seja é o falo, na medida em que ele é o suporte da função do significante, acerca da qual assinalo nesse artigo que ela cria todo significado.” (Lacan, J. Seminário 23, p. 114)  

Podemos situar esta passagem do Seminário 23 como fazendo parte de uma nova abordagem do falo em consonância com  o último ensino de Lacan.  Miller insiste em chamar a atenção para o fato de que neste último ensino os conceitos e as noções fundamentais da psicanálise são retomados por Lacan a partir de novos ângulos. Em especial, a retomada dos três registros do Real, Simbólico e Imaginário na perspectiva de seus enodamentos, sem a ideia de preponderância, de domínio,  de um registro sobre o outro.  Em relação ao falo, podemos dizer que esse recentramento implica em considerá-lo para além da dimensão do sentido e da significação.  Em outras palavras, a questão que se apresenta diz respeito às considerações sobre o falo quando ele se manifesta no campo do real.

Esta passagem, situada à p.114 do Seminário 23 (da edição brasileira) surge em meio às novas considerações sobre o falo, ainda que exigindo uma certa proximidade com a topologia dos nós que Lacan pratica ao longo deste Seminário.

A bem dizer, estas novas perspectivas sobre o falo já estariam esboçadas  desde o Seminário 20.  Em seu artigo “A ex-sistência” (Opção Lacaniana n.33), Miller observa a evocação neste Seminário do gozo fálico como instância “fora do corpo”.

Mais adiante, no Seminário 22: RSI, encontramos novas considerações sobre o falo que introduzem questões a serem retomadas no Seminário 23.

Vou destacar algumas:

– Uma primeira, na qual  Lacan lança a hipótese de uma possível  distinção entre o falo e o gozo fálico (p.108, RSI, lição de 21/01/1975, publicada em Ornicar?). Lacan formula essa hipótese nos seguintes termos: seria o falo “o gozo sem o órgão ou o órgão sem o gozo?”.  O que se assinala aí, a meu ver, é a disjunção entre o gozo e um órgão que lhe corresponderia.

– Uma segunda, na qual Lacan encaminha a questão do falo a partir da perspectiva de uma mulher como sintoma, “uma vez que não há gozo do Outro como tal”. Fazer de uma mulher um sintoma é dizer que o gozo fálico também lhe diz respeito: “Deve-se ainda articular o que essa ex-sistência do real que é o falo corresponde a ela. (p.109)”.  Vemos aqui uma apresentação do falo na perspectiva de “uma ex-sistência do real”, ou seja, o real se apresentando sob a forma da ex-sistência.  Veremos mais adiante a importância desse termo no último ensino de Lacan.

– Na lição de 17 de dezembro deste mesmo Seminário, Lacan deixa indicada  a sua orientação: “Que o gozo fálico esteja ligado à produção da ex-sistência, é isto que proponho a vocês este ano a colocar à prova.”

O que seria essa produção da ex-sistência? Um primeiro encaminhamento é dado por Lacan na perspectiva do nó borromeano: o  gozo fálico ex-siste em relação a um real que faz furo (“C´est au Réel comme faisant trou que la jouissance phallique ex-siste (p.102)”.

Para nos orientarmos  melhor nesse terreno, cabe trazer aqui as reflexões de Miller em seu texto “A ex-sistência”. Ali ele propõe uma outra trilogia sem a qual dificilmente conseguiremos nos orientar no último ensino de Lacan, a saber,  o furo, a ex-sistência e a consistência: “no nó borromeano como tal, o furo é o que caracteriza propriamente o simbólico; a ex-sistência é o traço do real e é na consistência que se reconhece o imaginário (p.13)”.  No entanto, estes três termos não estão associados exclusivamente a cada um dos três registros, mas se manifestam, ainda que de modos distintos,  em cada um dos três registros do nó borromeano. Nesse sentido, furo, ex-sistência e consistência se fazem presentes, a seu modo, tanto no Real quanto no Simbólico e no Imaginário. Se por exemplo consideramos cada um dos registros como uma argola, esta argola é, antes de tudo, um furo ao qual ex-siste “alguma coisa” que lhe contorna. Ao considerarmos a natureza dessa “alguma coisa”, já estamos ao nível da consistência.

Em relação à ex-sistência, prossegue Miller, ela pode ser tomada como categoria que, no último ensino de Lacan, qualifica o real, indicando algo que “sai para fora” diante da anulação ou do apagamento do que lhe antecede. É o que se pode ler no matema S (A/), como a de um significante que ex-siste à derrocada do Outro.

Miller destaca daí duas observações: estaria a ex-sistência “verdadeiramente” em condições de “fundamentar” o real? (p.17). Nesse caso, o acesso ao real estaria sob a dependência dos semblantes como o que ocorre, por exemplo, quando o real se manifesta sob a forma do impossível.

Uma segunda observação indica que a posição de ex-sistência é sempre correlativa a um furo.  Nesse caso, além do furo no Simbólico – sob a forma, por exemplo, de um impasse lógico – se haveria de considerar também um modo de apresentação do real como ex-sistência no tocante ao Imaginário. É aqui que reencontramos o gozo fálico como ex-sistência, em sua dimensão de gozo fora do corpo. Nesse caso, observa Miller, o real se apresenta sob a forma de acontecimento de corpo como algo que ex-siste em relação a um furo na consistência corporal.

Nesse sentido, a frase destacada no Seminário 23 pode ser lida como uma elaboração em torno do  falo considerado em sua dimensão real.  Podemos dizer que nas primeiras elaborações de Lacan o falo, como termo imaginário, toma um valor simbólico “como intersecção entre o imaginário e o simbólico”. É o falo tomado na dimensão da operação de significação, como  função decorrente da metáfora paterna. É daqui que decorre a sua importância  no campo das identificações e de toda a dinâmica em torno do ser e do ter.

No entanto, já mesmo em “A significação do falo”, Lacan deixa entrever que o falo aponta para algo que está para além do sentido (Sinn), que algo nele também cumpre a função de referência (Bedeutung).  Neste mesmo Seminário 23, em relação à passagem que estamos comentando, Lacan se mostra satisfeito por ter apontado para a estrutura de nó em jogo na dimensão fálica, já na primeira linha de “A significação do falo”: “Sabemos que o complexo de castração inconsciente tem uma função de nó” (Escritos, p.692).

A dimensão do gozo fálico como ex-sistente permite incluir um aspecto clínico de atualidade.

Sabemos hoje em dia do uso indiscriminado das drogas capazes de assegurar a ereção masculina durante o ato sexual. O uso destas drogas não se restringe mais a uma determinada faixa etária.

Por um lado, vemos aqui, a meu ver, uma comprovação contemporânea da tese de Lacan de um uso da droga como o que permite “romper o casamento com o pequeno pipi”. Trata-se de um gozo que faz um curto-circuito em relação ao desejo do Outro, buscando prevenir  um encontro com o real do corpo. Por outro lado, haveria também nesse uso indiscriminado da droga uma recusa em estar diante de uma verificação do real através do falo, no sentido de incluir no gozo fálico aquilo que dele ex-siste em relação ao corpo próprio.

Essa recusa na verificação do real através do gozo fálico encontra ressonância na cultura. Em seu livro  Uma mente própria – História cultural do pênis, David Friedman chama a atenção para os efeitos de uma “medicalização do pênis” e suas drogas correspondentes.  Para ele, o pênis se torna hoje parte da indústria do entretenimento e do lazer, ao nível de um “joystick”.  Se antes o pênis era considerado como uma parte do corpo dotado de uma vontade própria, hoje ele se encontra reconfigurado pela “indústria da ereção”, procurando substituir o original caprichoso e rebelde pelo modelo de um órgão mais confiável.

Se há na cultura um movimento de evitação das formas de apresentação do real do corpo, não podemos perder de vista o que Lacan, na lição de 21 de janeiro de 1975 do Seminário RSI, chama a atenção, diante desta perspectiva de se assegurar o Um do corpo através do Um do sentido. Vale a pena acompanharmos essa reflexão: “O Um do sentido é o ser, o ser especificado do inconsciente enquanto ele ex-siste, pelo menos em relação ao corpo, pois se há alguma coisa impactante é que ele ex-siste através da discórdia. Não há nada no inconsciente que entre em acordo com o corpo. O inconsciente é discordante. O inconsciente é isso que, por falar, determina o sujeito enquanto ser”.

É diante desta discórdia ineliminável entre o inconsciente e o corpo que a experiência analítica nos permite reconhecer no falo a sua dimensão de “falácia que testemunha do real”.