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XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 9 de setembro de 2018 - 0 comments

“Sua paixão, a do transexual, é a loucura de querer livrar-se desse erro, o erro comum que não vê que o significante é o gozo e que o falo é apenas o significado”

(Lacan, J. O seminário, livro 19… ou pior, p. 17)

 

Nesta frase Lacan continua trabalhando a questão que o move desde suas primeiras releituras de Freud: o que é o falo de que tanto se fala na teoria psicanalítica.

Ele estava preocupado, nos anos 58-60, em se diferenciar da alcunha de falocêntrico que Jones tinha usado para denominar Freud. Assim, no seminário 6, ele explica que para ele o falo não é o órgão peniano, que o falo é um significante, o significante do desejo do Outro.

Ele diz: “Porém, nós estamos muito longe de sustentar a posição falocêntrica que me imputam aqueles que ficam na aparência do que estou articulando”. [1]

E um pouco antes: “Se há alguma coisa que o falo como significante significa é o desejo do desejo do Outro.”[2]

O falocentrismo, então, do qual Lacan procura se diferenciar, seria a confusão do conceito de falo com o órgão peniano, que seria só mais um dos representantes do falo, como teria demonstrado Freud no seu texto: “As transmutações do instinto exemplificadas no erotismo anal”, de 1917.[3]

No seu texto “A significação do falo”, um pouco anterior à aula do seminário 6 da qual acabo de falar, ele fazia referência à confusão dos analistas posteriores a Freud, perdidos por achar que este autor falava do pênis. Ele comenta que Jones nega o lugar privilegiado do falo dentro da estrutura psíquica achando que é um problema exclusivamente masculino (a fase fálica nas mulheres só seria secundária), já que a frase clássica de Jones é, mal citando a Bíblia: Deus os criou homem e mulher. Dos culturalistas, como Karen Horney, comenta que acham que a inveja do pênis é um resultado secundário ao lugar que o homem ocupava na sociedade nessa época. Por isso Freud a chamava feminista. Ele diz: “Precisemos que essa promoção da relação do homem com o significante como tal nada tem a ver com uma posição “culturalista”no sentido corrente do termo, aquela em que sucedeu a Karen Horney, por exemplo, antecipar-se na querela do falo por sua posição, qualificada por Freud de feminista.”[4]

Então, para Lacan, nessa época, o falo é o significante da falta do Outro, o significante do desejo, algo que ninguém tem nem é. Pela intervenção deste significante os sujeitos são instados a parecer o que não são e a fingir que têm o que não têm.

Mas na citação do seminário 19 que estou comentando Lacan introduz uma volta mais.

“Sua paixão, a do transexual, é a loucura de querer livrar-se desse erro, o erro comum que não vê que o significante é o gozo e que o falo é apenas o significado”. [5] Ele aqui diz que quando os transexuais querem se livrar do pênis, o confundindo com o falo, acham que se estariam livrando do significante que os significa como homens. Mas que o falo, na realidade, é só um significado, efeito do gozo fálico. Ele chega a insinuar aqui que se colocar em um ou outro lado das fórmulas da sexuação não depende de se ter ou não um pênis, apesar de que esse seria o erro comum, não só dos transexuais, mas de todo falasser. Mas atualmente se constata que as transmulheres já perceberam este erro e não desejam mais ser operadas. Já sabem que “ser mulher” não depende de ter ou não um pênis. A pergunta que fica: o que é o gozo fálico, aquilo que produz todos estes significados?


 

[1]Lacan, J. Le séminaire, livre 6, le désir et son interpretation, Paris: Ed, de la Martinière le champ freudien editeur. 2013, p.563. A tradução é minha.
[2] Id, ibidem.
[3] Freud, S. “As transmutações do instinto exemplificadas no erotismo anal”. Em: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago ed. , 1976, p. 159.
[4]Id, A significação do falo. Em: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed.,1998, p. 696.
[5] Id, O seminário, livro 19,…ou pior, Rio de Janeiro, Zahar ed., 2012, p. 17.