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Catando prosa e poesia


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 5 de dezembro de 2018 - 0 comments

Quais as ressonâncias provocadas, em nós analistas, pelo XXII Encontro Brasileiro de Psicanálise  sobre a queda do falocentrismo e suas consequências?

Em primeiro lugar é importante tomar o significante analista, na dimensão freudiana, como aquele que deve abdicar de todo o saber prévio para deixar-se ensinar pelo que cada “caso” tem de incomparável, único, original. Sabemos, também, que Lacan colocava-se na posição de analisante, em seus seminários, denotando que seria desse lugar que poderíamos dar conta de nossa prática, ou ainda, de nosso próprio inconsciente. Esta parece-me ter sido a orientação privilegiada pela comissão organizadora e comissão científica ao apostar no que cada mesa de trabalhos poderia nos ensinar ao enfatizar o valor contingencial, a variedade dos textos, relatos clínicos e testemunhos que circularam no XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, assim como diferentes respostas dadas à pergunta sobre o que a psicanálise ensinou a cada um sobre o tema em questão.

Realçamos a importância da transmissão de Éric Laurent nas duas conferências ministradas, onde ele trabalhou o falo e suas desordens, tanto no aspecto do ilimitado, quanto em seu aspecto negativizável, e sobretudo, seus comentários nos 3 testemunhos de passe apresentados por : Maria Josefina Fuentes, Sergio Laia e Sandra Grostein . O vivo de sua leitura permitiu a transmissão de conceitos e articulações nem sempre fáceis, contudo instigou-nos a prosseguir na direção de contribuir para que o poder da palavra em psicanálise, como foi evidenciado em muitos trabalhos e falas apresentadas, permitisse a cada um dizer algo.

É a partir da relação do poder da palavra e do seu valor de testemunho recolhido do trabalho de Lucíola Macedo: “(Des)poderes”, apresentado na plenária “Poderes”, que traçarei uma linha em direção à escrita que se deposita nos depoimentos de passe. Embora a Psicanálise seja uma experiência da palavra, a escritura encontra nela um lugar fundamental, haja visto que palavra e escritura estão enlaçadas, já que o gozo se escreve no corpo como sintoma. É nesse sentido que podemos dizer que a palavra no percurso de uma experiência de análise tem efeitos de escritura, visto que não se refere somente ao que já estava escrito como também à perspectiva do novo que poderá vir a ser escrito.

Lucíola propõe o testemunho como sendo a torção entre a política e a poética, onde a experiência do final de análise e a emergência do desejo do analista são “o mais vivo exemplo da conjugação entre o ‘despoder’ roseano e o ‘húmus humano’(o sicut palea de São Tomás de Aquino). Situa que na passagem de psicanalisante a psicanalista é possível verificar algumas figurações do despoder da palavra na experiência analítica, correlativo da “destituição, queda, evacuação” que advém quando o que valia como significante mestre é destituído, reduzido ao objeto a; e o “amor mais digno”, que não se presta a “generalização falocêntrica”, por advir da impossível relação entre os sexos.  Sustenta que é no dispositivo do passe, onde se irá aferir a emergência do psicanalista e o tratamento do real pela palavra, que a transmissão de um saber não universalizável, um saber sobre algo que se desvaneceu, ponto nodal entre o individual e o social, o íntimo e o transindividual, o ponto mais vivo que ressoa da letra de gozo de cada um se enlaçará ao político, enquanto vida comum na polis.