Rolar para cima

Catando prosa e poesia


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 5 de dezembro de 2018 - 0 comments

A princípio, chamou a atenção a estrutura: em um encontro que falaria muito da questão trans, iniciou-se ouvindo uma pessoa trans. Não sei se a foto foi tirada (se não, perdeu-se a oportunidade), mas se viu em dado momento uma mesa com pessoas vinculadas à escola, sentadas, com as cabeças viradas, olhando e ouvindo Letícia Lanz, em pé, falando (e o título de “queda do falocentrismo”, se um pouco irônico, adornava visualmente ao fundo). Se talvez caiba a crítica de ser essa uma das únicas falas do encontro a ter um tom pessoal, se vê em ponto análogo da estrutura, no final, os depoimentos de passe.

No meio, uma das falas de Laurent também fica retida na peneira, por parecer indicar um caminho. Pouco depois da contribuição de Rodrigo Lyra sobre os algoritmos, Laurent chama a atenção para as diferenças entre interpretações semânticas e não-semânticas, e faz lembrar uma questão do xadrez, levantada pelo matemático Roger Penrose. Em determinada posição do jogo – rara, improvável, particular, mas possível – se dá uma situação a que todos os algoritmos dos computadores enxadristas respondem como “jogo terminado”: não há mais como vencer, todos os caminhos conduzem à derrota. Entretanto, garante o matemático, jogadores humanos conseguem ver uma saída intuitiva que poderia levar à vitória do lado condenado, através de sacrifícios que o computador considera fúteis, dado o desequilíbrio inicial. Ficou-se então com a possibilidade – também rara, particular, improvável, mas possível – de haver, no que é da língua, entre semântico e assemântico, alguma coisa que, mesmo sem a referência do falo, nos deixa escapar do determinismo do algoritmo.