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Argumento para o XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 7 de março de 2018 - 0 comments

A queda do falocentrismo

Consequências para a psicanálise

 

Quem mandou? Quem mandou brincar na chuva, sair à noite? Quem mandou ir atrás, trair, amar demais, dormir de menos? Quem? Algo em mim, mais forte que eu – diria cada um de nós quando percebe que talvez tenha ido longe demais no caminho do desejo.

O querer não costuma seguir o bom senso, insiste e mira no que em nós, sem limite ou descanso, quer mais – o que J. Lacan denominou gozo. A expressão “Quem mandou?” porém, enfatiza apenas os perigos do desejo, como se sempre, mais cedo ou mais tarde, tivéssemos de pagar a fatura de seus excessos. Nem sempre, ao menos para Lacan que situa a psicanálise exatamente na arte de encontrar a composição singular entre falta e excesso, desejo e gozo, que dê a cada um a medida de seu destino.

A expressão situa-se, assim, no avesso de uma análise por supor que há quem mande melhor, na justa medida. “Isso não se faz” é o que enunciaria a tradição, nos convencendo de que se assim sempre foi é porque assim deve ser. Seu poder, encarnado por Freud no pai é em grande medida virtual, uma vez que ninguém sabe quem escreveu as regras da cartilha. Seguindo-a, no entanto, assumimos práticas que constituem e organizam nossos corpos, repartindo até nosso prazer: de um lado, o “masculino”, tido como localizado e vigoroso; de outro, o “feminino”, dito abrangente e sensível. Falo foi o nome freudiano para o ícone mais comum desta cartilha que, juntando a fome com a vontade de comer, define inclusive nossa natureza sexuada, estipulando complementariedades: para uma mulher um homem, para um pai um filho e assim por diante.

Ocorre que a tradição se sustenta na continuidade. Quando a tecnociência e o mercado dão as cartas, porém, quando o sentimento de que não há mais limites ao que se possa fazer ou vender generaliza-se, as coisas mudam. Se trinta anos na praça como taxista valem nada diante do GPS, para que as prescrições do pai? Se o Google parece ler nosso pensamento ao nos sugerir onde comprar produtos que apenas tínhamos começado a procurar, se o Spotify e seus podcasts sem autor nos deliciam sem que tenhamos que escolher o que ouvir, como crer em uma determinação maior?

O ocaso da crença no universal do pai acompanha-se da queda do falocentrismo. Sem a avenida principal da tradição, abre-se um sem número de vias para o gozo, para uma cultura de galáxias plurais no lugar de sistemas ordenados. Quais seus efeitos em nossos corpos e cidades? Há os que se aferram à tradição, mas, perdida sua eficácia natural, tornam-se pais severos de uma violência sem par; há os que, sonhando com a diversidade, se notam às voltas com o retorno de velhos dualismos ou individualismos ali onde parecia crescer a pólis do poliamor.

É possível querer sem o que transgredir? Seremos, no prazer, condenados aos desejos e gozos do binarismo e à sua superação? E na política, nada mais haverá além do poder do chefe e sua corrupção? Quem escolher quando a representação está em frangalhos e nossos eleitos vivem para gozar? A que se dedicar quando o desempenho vale mais que a ação eficaz? Quando somos empreendedores ou consumidores, nunca mais trabalhadores?

Enquanto isso, o querer segue em desassossego, promove ocupações, movimentos slow, saraus, intervenções, gozos trans, se encanta com os ininteligíveis, ignora os likes, vibra com a comunidade da comunidade sem exército, dá artes de sobrevida a nossos jovens negros em tempos de genocídio. Não teria lugar a psicanálise nestes espaços? Quais condições lhe favorecem ou fazem obstáculo hoje?

Nossa comunidade, psicanalistas e não psicanalistas que compartilham da mesma orientação lacaniana, constitui-se de trabalhadores decididos a enfrentar o desafio de abordar as questões envolvendo a queda do falocentrismo, a partir do que sua prática lhes ensina. Seremos, psicanalistas, suficientemente queers para estarmos à altura das soluções ao mal-estar de nossos dias com as quais nos deparamos em nosso trabalho clínico? De que modo seguiremos promovendo a surpresa de uma fala que encontra sua singularidade como sintoma? E que, com ele, enfrenta o próprio destino e disto faz acontecimento?

Nosso Encontro Brasileiro do Campo Freudiano repartirá estes horizontes em três eixos: Poderes, Eróticas e Sintomas. Interrogaremos nossa prática a partir da ênfase nos poderes sem pai, na vida amorosa quando a falta e o falo não dão mais as cartas e na pluralidade de novos sintomas que os dias atuais descortinam. Contaremos com os flashes e reflexões da prática psicanalítica, assim como com a bússola fundamental que nos fornecem, por meio dos testemunhos de passe, as análises levadas às últimas consequências. Poderemos, assim, examinar as “consequências para a psicanálise” das soluções e impasses subjetivos de nosso tempo.

Marcus André Vieira
Coordenador da Comissão Científica do XXII EBCF

Marcus André Vieira