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XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 7 de março de 2018 - 0 comments

Estamos em fase de saída da era do Pai. …. Outro discurso está em vias de suplantar o antigo. A inovação no lugar da tradição. Em vez da hierarquia, a rede. O atrativo do futuro supera o peso do passado. O feminino prevalece sobre o viril. … O Édipo não é a solução única do desejo, é apenas sua forma normalizada; … não esgota o destino do desejo.[1]

Jacques-Alain Miller

 

Em célebre artigo de 1925, Freud aborda as “consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos” e hoje nos propomos a recolher, entre os membros da Escola Brasileira de Psicanálise e demais integrantes do Campo Freudiano no Brasil, as consequências para a psicanálise da “queda do falocentrismo”. Ora, sabemos que a lógica fálica articulada ao Édipo, tal como formula Freud, não equivale ao falocentrismo cultural, do mesmo modo que a função paterna – que opera a inscrição simbólica da castração como acesso ao desejo – não se confunde com o patriarcalismo. No entanto, por “queda do falocentrismo” queremos aqui designar tanto as transformações sociais associadas ao declínio do Pai e dos ideais coletivos, quanto os desdobramentos conceituais da psicanálise que têm início com a clínica da neurose e avança, com Lacan, ao se deixar ensinar pelos psicóticos.

O termo falo é empregado por Freud para designar a marca inconsciente da diferença sexual. Trata-se de uma função subordinada à lógica edipiana encontrada por ele na escuta de neuróticos em análise. Embora, como ele mesmo atesta, essa lógica não dê conta da posição feminina propriamente dita, ela põe em movimento o desejo e dá sentido ao gozo enigmático.

O falo como regulador da organização libidinal infantil permitiria, nas palavras de Lacan em sua retomada de Freud na década de 50, “a instalação, no sujeito, de uma posição inconsciente” sem a qual não haveria “identificação com o tipo ideal do seu sexo”[2]. Evidentemente essa interpretação da diferença sexual pela lógica da castração é sempre precária, pois a relação ao Outro sexo não é toda regulada pelo falo e não há uma resposta sobre o que é ser mulher, ou o que é ser homem. Cada sujeito construirá as suas respostas, que suprirão de forma mais ou menos precária a inexistência de relação entre os sexos.

Ao abordar a sexuação em termos de gozo, Lacan[3] subverte as categorias de gênero. Nesse sentido, uma conversa instigante se abre com autores das teorias de gênero e do movimento Queer.[4] Com relação à “diversidade sexual” reivindicada pelos Queers, Fajnwaks faz uma pontuação interessante: a psicanálise lacaniana não teria muito o que objetar à teoria queer com relação à busca de uma nominação que prescinde do Nome do Pai, entretanto, ao contrário de novas identidades, é como resultado de um processo de desidentificação que uma análise pode conduzir um sujeito a uma nova nominação a partir do núcleo de gozo irredutível.[5]

Como vimos, a função do falo é central na estruturação subjetiva da neurótica freudiana, entretanto, ela não opera para muitos sujeitos que encontram outras ordenações psíquicas que não a edipiana. A clínica das psicoses demonstra a instabilidade psíquica sem a significação do falo. De forma análoga, mesmo em sujeitos neuróticos, os sintomas contemporâneos relativos ao ato – adições, auto-mutilações e compulsões – testemunham de uma satisfação pulsional não regulada pelo falo, associada à desvalorização da função do Nome do Pai como “instrumento para resolver o gozo pelo sentido”[6].

Por outro lado, as psicoses sinthomatizadas[7], ditas ordinárias, nos ensinam sobre a plêiade de invenções sinthomáticas que prescindem do falo e isso pôde ser acolhido e tratado a partir da intuição borromeana de Lacan. Com isso, abre-se a via para uma prática que valoriza a invenção sinthomática de cada um. Os Analistas da Escola, ao relatarem o passe clínico ao final de suas análises, nos dão um testemunho dessas invenções singulares.

Convido os colegas de nosso campo a enviarem breves relatos clínicos que possam instruir nossa reflexão. Como se refletem em nossa prática cotidiana as transformações em nossa cultura? O que aprendemos ao acompanhar, um a um, os sintomas de nossa época? E, ainda, como a psicanálise contribui para dar lugar às inovações possíveis frente ao impossível da proporção entre os sexos?

 

Angela C. Bernardes
Diretora do XXII EBCF

 

 


[1] Miller, J.-A. Quarta capa de: Lacan, J. Le seminaire Livre VI: le désir et son interprétation. Éditions de La Martinière/ Le Champ Freudien, 2013.
[2] Lacan J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar., 1998, p. 692.
[3] Cf Lacan, J. O seminário livro 20: mais, ainda. Rio: Jorge Zahar, 1985.
[4] Vale a pena conferir a publicação de Fajnwaks, F. e Leguil, C. Subversion lacanienne des théories du genre. Paris: Éditions Michèle, 2015.
[5] Idem.
[6] Miller, J.-A. “Notas passo a passo”, em: Lacan, J. O seminário livro 23. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 238.
[7] Referente a Sinthoma , termo forjado por Lacan no Seminário 23. Op. Cit.

Angela C. Bernardes