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A anatomia e seus destinos¨


XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - 8 de julho de 2018 - 0 comments

Marcus André Vieira
www.litura.com.br
mav@litura.com.br

Gostaria de apresentar algumas das questões que o debate em curso na cultura com relação à explosão dos gêneros nos coloca, a nós analistas.

Que explosão? São 56 opções para definição de gênero de alguém que se inscreva hoje no facebook americano, 17, no brasileiro. A ideia é que haja gêneros para todos os gostos, desde os clássicos, até gênero “fluido”, “pangênero” ou ainda o gênero “questionando o gênero”.[1] Sentimos o quanto estamos diante de uma catalogação instável e em proliferação descontrolada, mas como abordá-la?

A anatomia de Freud

Proponho partirmos de uma premissa essencial a essa proliferação: a anatomia não é destino.

Essa premissa tem uma materialização já clássica, dita transexual. Ela exibe seu desacordo entre sexo e gênero e exige correção, como no clichê: “sou uma alma de mulher, num corpo de homem”. É uma posição dita trans-binária, pois se mantém referida ao binarismo masculino-feminino. Há uma posição “trans” bem mais radical, para a qual não apenas a anatomia, mas o próprio binarismo deve ser superado como forma única de identidade e sexualidade. O binário hetero seria apenas uma matriz possível entre outras, um modo de vida straight. Neste plano, nem a anatomia, nem o binário são incontornáveis no que concerne à sexualidade. É a posição dominante nos estudos queer.[2]

Tanto uma posição quanto a outra parecem diametralmente opostas à célebre frase de Freud: a anatomia é o destino.[3]

A frase, tomada de forma isolada, parece indicar que a anatomia sustentaria uma diferença natural, original e, portanto, intransponível entre homem e mulher. Ao contrário, ela vem ratificar a ideia de que a anatomia é decisiva, mas nada essencial, nada natural, pois só intervém, para a criança, em um segundo tempo, a partir do olhar do Outro. É o mundo que vai dizer, seguindo seu modo de “ler” a morfologia da criança, para que lado ela deve ir em termos de identidade sexual e não seus genes, ou qualquer tipo de sexualidade primordial. Nada mais coerente com a ideia de que nos tornamos o que somos a partir do Outro e que faz Freud afirmar, por exemplo, que “a masculinidade e a feminilidade puras aparecem como construções teóricas de conteúdo incerto”.[4]

Lacan resume e explicita essa posição freudiana ao nos incitar a situar a anatomia a partir de sua raiz etimológica, como tomo, tomia, corte.[5] A diferença anatômica entre macho e fêmea não está no real, ela é um recorte que resulta do encontro entre simbólico e real. Só há diferença no simbólico. Afinal, segundo nosso aforismo maior: não há relação sexual no real.

Trans

Tudo resolvido? Não, porque Lacan mais que qualquer um, mostrou como as determinações simbólicas são decisivas, como as fixações libidinais a que nos remete Freud se instauram em nossa história como verdadeiros acontecimentos, compondo nosso corpo e traçando muito de nosso destino.

Difícil, para quem lida com a viscosidade da libido nessas fixações e sua tendência à repetição, compartilhar da euforia de tantas áreas da cultura com relação à possibilidade de uma extensa reinvenção de si.

Ora, o debate é intenso e polarizado. Nele, se temos reservas com relação à essa possibilidade nos vemos logo ao lado dos que nos levam ao pior, ao impor um violento “não” a qualquer mudança que não seja dentro do paradigma hetero (com Deus e a pátria de preferência).[6]

Não é uma questão estritamente política, mas igualmente clínica, pois nos deparamos cada vez mais com sexualidades vivas, ativas, mas ilegíveis a partir do prisma masculino-feminino. Para colocar a questão no plano da radicalidade do que nos apresenta nossa clínica hoje, temos que estar dispostos a rever nossos conceitos. Não foi sempre foi o caso?

Digamos, então, que a questão “trans” seja “até que ponto ainda precisamos da anatomia, por um lado, e do binarismo homem-mulher, por outro, para nos sustentar em nosso ser sexuado?” Seu desdobramento no plano de nossos conceitos seria: É possível prescindir do falo como operador de diferença e de partilha do teatro dos sexos?

O falo e a paz

Tantos recriminaram a Freud que um só discriminante, o falo, e não dois atributos, pênis e vagina, sustentassem essa partilha! Lacan percorre inúmeros caminhos abstratos, da lógica e da matemática, por exemplo, para nos mostrar que o essencial é que o dispositivo fálico institui uma diferença sustentada no binômio zero e um.

Zero e um sustentam um “sim e não” bastante sólido.[7] Em vez de duas marcas de atribuição sexual, ou outras mais ainda, apenas “um” ou “zero”.

Dois atributos distintos, pênis e vagina, por exemplo, estruturam uma diferença instável: “Um” e “um” sempre abre a possibilidade de um a mais: “porque não “um”, mais “um”, mais “um” e assim indefinidamente”? É o que nos mostra o facebook hoje. Já com um discriminante único temos uma partilha que não se infinitiza. Sejam infinitos sujeitos, eles poderão sempre ser divididos em dois: uns têm outros não.

O problema começa quando se toma a diferença fálica como atribuição de valores. Homem-mulher, a despeito das aparências, não são, na clínica freudiana, ao menos tal como lida por Lacan, uma distribuição de desigualdades sociais ou de poder, mas a presença ou não de um atributo, com vantagens e desvantagens tanto para o lado que o porta quanto para o que não o porta.

Insisto: não me refiro às inúmeras situações sociais em que a inegalidade pode ser absurda, mas à situação muito especial que é a da clínica psicanalítica. Nela, o que está em jogo não é tanto de que lado estamos, muito mais como, para cada um, um corpo originalmente “perverso polimorfo”, como define Freud, mesmo não tendo que exatamente escolher um lado, terá que se localizar em algum ponto do continuum entre os polos masculino-feminino e recalcar tudo o que não se encaixa bem nele.

Cis

O modo de estruturação “sim ou não”, parece, porém, fora de moda no nosso mundo estadunidense. O ideal liberal de hoje é que haja tantos “uns” quantos se quiserem contar, todos diferentes entre si.

Porque não? Não creio que devamos ter, como psicanalistas, nenhuma pretensão de saber quais os caminhos corretos para a cultura. Há uma questão, porém, que não podemos evitar por dizer respeito aos fundamentos de nossa clínica: Caso a partilha binária, hetero, obrigatória, seja realmente descartada, como modo de estruturação predominante de nosso ser sexuado, de que modo isso incide sobre outra partilha, bem mais geral, a do binarismo significante?

“Noite” e “dia”, por exemplo, constituem um par oposto de significantes. Eles não traduzem realidades objetivas, mas as criam, para além das variações objetivas de luz e sombra. Engendram realidades bem concretas, basta o exemplo dado por Lacan no Seminário 3 para nos convencermos. Ele propõe que nos imaginemos em um fim de tarde sendo tomados pela paz do anoitecer.[8] É uma realidade engendrada pela diferença entre a noite e o dia, sustentada apenas pelo recorte deste par significante. E precisamos tanto da noite e do dia como dessa paz para viver nesse mundo.

A matriz hetero, ou cis, edípica é, segundo Lacan, um poderoso “método de adaptação”. Ela associa um discriminante binário do tipo “zero” e “um” a um suporte anatômico, o pênis, e ao mesmo tempo a um binário significante homem-mulher. Estabilizado este binário, o dispositivo será o “ponto de basta” que estabiliza muitos outros.[9]

Caso essa matriz não seja mais o ponto de basta fundamental da cultura, podemos ainda assim viver o dia e a noite de maneira estável? Ora, desde sempre Freud e Lacan examinaram situações onde o falo era inoperante e mesmo assim o binarismo significante seguia de pé. Então, ou recusamos ao psicótico a possibilidade da paz do entardecer ou assumimos que há outras vias, não fálicas, para vivê-la.

O que não cabe no Facebook

Mas Lacan irá bem mais longe. Ele não apenas descreverá exceções ao binarismo edípico igualmente eficazes. Com suas fórmulas da sexuação, introduzirá um novo par que passará a nos orientar na clínica sobre as questões do sexo fora de qualquer binarismo.

Apesar de mantidos os termos “masculino” e “feminino”, este par no Seminário 20 não é mais um binário. Não são gêneros, traduzem uma dialética de articulação entre dois modos do gozo se inscrever no corpo. O gozo fálico, dito “masculino” corresponde à experiência de uma satisfação vivida como conjunto fechado, compacto, totalizado, chamado por isso por Lacan de campo do Todo. Já o outro lado, “feminino” é o do gozo como um conjunto aberto, inconsistente, portanto, sem identidade definida, para o qual Lacan reserva o termo nãotodo.[10]

A polaridade binária de gênero passa a ser regida pela dialética entre o Todo e o nãotodo. Os gêneros da lista do facebook, binários ou não, estarão todos, para Lacan, do lado totalizante, dito masculino, por remeterem a uma identidade estável. Do outro lado, feminino, como falar em “um lado”? Este gozo não tem assentamento, não é um topos, seja ele identitário ou de gênero.

O gozo feminino lacaniano não é um gênero, mas a experiência corporal de um gozo “inassimilável”, como C. Leguil destaca em Lacan.[11] Não é nem mesmo a ausência de gênero, um gênero agênero, mas um gozo que insiste inclassificável por definição, que torna qualquer lista precária, inconsistente. Ele nos habitará, por sermos seres falantes, desregulados pela linguagem, em qualquer uma das possibilidades de gênero do facebook.

No-binarios

Afuera del todo x notodo?

Um real queer?

Grande pretensão a do psicanalista de legislar sobre o que seria, “na verdade” o masculino e o feminino! Corremos este risco a cada vez que usamos a diferença entre gozo fálico e gozo feminino confundida com o binarismo de gênero. Talvez por isso, Lacan tenha proposto outros modos de apreensão deste gozo: suplementar, louco, místico ou ainda gozo opaco do sinthoma. É com esse que quero concluir.

Sem justificar porque chamá-lo de gozo do sinthoma, que se retenha sua definição como “acontecimento de corpo”. Ela indica, segundo J. A. Miller, o acontecimento de um gozo que não é um “gozo sentido” (gozo totalizável, que se sente e se localiza no corpo), mas um gozo opaco (deslocalizado, sem lugar no corpo, mas ao mesmo tempo sendo dele).[12]

O que temos de vida em nós pode ser vivido no campo do universal. É a que serve o falo, para tornar esse gozo apreensível, localizado (e também limitado). Parte da vida do corpo não será, porém, apreendido por esse aparelhamento e se manterá, no corpo, mas sem nome ou endereço.

Ora, se o termo queer designa a ideia de que não há identidade legível, fálica ou não, que diga a última palavra sobre nosso gozo, Lacan demonstra, então, que a psicanálise sempre lidou exatamente com o gozo visado pelos estudos queer.[13]

Retomo para concluir a questão “trans” no ponto em que acredito seja o essencial: Seremos, psicanalistas, suficientemente queers para não nos precipitarmos em direção a nossas chaves edipianas de leitura e estarmos à altura do real em jogo nas soluções queer de nosso tempo?[14]

A resposta passa pela questão maior de Lacan, com estar à altura do real em jogo em uma análise? Nosso desafio é esse, mostrar como é possível, como analistas, estarmos à altura do sem-chão do gozo opaco que nos habita para propor uma escuta livre o bastante de preconceitos que lhe dê o lugar necessário na análise e na vida.

Post scriptum

Creio que dessa forma respondo à vertigem que me tomou ao ler o seguinte diagnóstico da situação enquanto preparava esta apresentação: “os/as psicanalistas, por mais que almejem a abstinência na sua escuta, não escapam a essa situação”, que é a do “homem-varão branco ocidental cis e heterocentrado, de classe média ou média-alta”. [15] Podia jurar que o autor, Thamy Ayouch, me conhecia e apontava o dedo para mim!

Essa vertigem paranoide se dissipou quando a ela respondeu minha certeza de que é sempre possível escapar, em parte que seja, à nossa situação. A crítica do autor, muito justa, incidia sobre a pretensão, associada à posição cis-hetero, em sustentar um olhar “de fora”, imparcial. Já minha certeza se sustenta no que vivi bem “de dentro”, como analisante.

Um analisante é tudo menos o campeão da luta anti-preconceito ou das reinvenções de si. Ele vem se queixar e refazer o caminho de como tudo e todos foram levando-o a ser o que é. Tudo parece concorrer para que nada rompa as determinações de seu labirinto obsessivo, ou de sua prisão histérica. Apesar disso acontece, às vezes, em uma análise o quase milagre de uma fala que nem se queixa, nem se contrapõe a nada, que tem como interlocutor um Outro inconsistente, em aberto, nem vilão, nem herói. Acontece, em uma análise, que alguém tome a palavra para acertar as contas com seu destino.

É ao mesmo tempo a descoberta de que nossa existência depende do que somos, do gozo que coube, mas muito mais do pôde não caber. Pura singularidade, não se encadeia, está fora de qualquer pacto, mas sem ele nada “dá liga”.

Talvez seja essa a especificidade da psicanálise, a de oferecer a quem está se debatendo com os preconceitos do Outro e com os seus próprios a possibilidade de retomar as tantas demandas e fixações libidinais que fizeram história em sua vida para fazê-las funcionar de outro modo. Como? Contando com a vida que a todas estas determinações escapou. Ela se pressente nos repetidos encontros com um gozo a nós destinado, mas para o qual não haverá jamais destino. Queer ou não, é com essa alteridade sem corpo (em nosso corpo) que lançamos a cada vez os dados.[16]

Buscar o ponto de real em que esse gozo é abertura ao Outro foi o que me levou a tomar, neste debate, a palavra.

¨ Texto redigido para apresentação na mesa “Sexo e gênero” do Colóquio da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio, 23/9/16. Publicado como ???

[1] “Agender, Androgyne, Androgynous, Bigender, Cis, Cisgender, Cis Female, Cis Male, Cis Man, Cis Woman, Cisgender Female, Cisgender Male, Cisgender Man, Cisgender Woman, Female to Male, FTM, Gender Fluid, Gender Nonconforming, Gender Questioning, Gender Variant, Genderqueer, Intersex, Male to Female, MTF, Neither, Neutrois, Non-binary, Other, Pangender, Trans, Trans*, Trans Female, Trans* Female, Trans Male, Trans* Male, Trans Man, Trans* Man, Trans Person, Trans* Person, Trans Woman, Trans* Woman, Transfeminine, Transgender, Transgender Female, Transgender Male, Transgender Man, Transgender Person, Transgender Woman, Transmasculine, Transsexual, Transsexual Female, Transsexual Male, Transsexual Man, Transsexual Person, Transsexual Woman, Two-Spirit” (fonte: http://relationsinternational.com/tag/gender-fluid/, acesso em 07/09/16).
[2] Cf. Fajnwaks, F. e Leguil, C. Subversion lacanienne des théories du genre, Paris, Éd. Michèle, 2015. Salvo indicação, as referências aos estudos de gênero deste artigo provêm todas desta excelente coletânea. Remeto ainda o leitor ao significativo dossiê organizado por Patrícia Porchat e Thamy Ayouch (agradeço à Maria Luiza Rovaris Cidade pela indicação), que forneceu elementos de base para boa parte da reflexão aqui exposta com relação às relações psicanálise e estudos de gênero em nosso meio: Periódicus -Revista de estudos indisciplinares em gêneros e sexualidades, n. 5, v. 1, Salvador, CUS/UFBA, maio-out 2016 (http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revistaperiodicus, acesso em 07/09/16).
[3] [Die Anatomie ist das Schicksal] Freud, S. (1924) “A dissolução do complexo de édipo”, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIX, Rio de Janeiro, Imago, 1976, p. 222. Para um excelente estudo sobre o contexto desta frase na obra de Freud: Moi, T. What Is a Woman? And Other Essays, Oxford, Oxford University Press, pp. 375 et passim.
[4] Respectivamente: Freud, S. (1905) “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. VII, Rio de Janeiro, Imago, 1976, p. 146; (1930) “O mal-estar na civilização”, ESB, vol. XXI, p. 149, (1925) “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos”, vol. XIX, vol. p. 320.
[5] “Freud nos diz a anatomia é o destino. Vocês sabem que, em certos momentos, ergui-me contra essa formulação, pelo que ela pode ter de incompleto. Mas ela se torna verdadeira se atribuímos ao termo “anatomia” seu sentido estrito e, digamos, etimológico, que valoriza a ana-tomia, a função de corte” e “A limitação ao que o destino do desejo fica submetido no homem tem por móbil a conjunção de certa anatomia (…) com o que é efetivamente o destino, ou seja a Ananké pela qual o gozo tem que se confrontar com o significante” (Lacan, J. O Seminário, livro X, A Angústia, Rio de Janeiro, JZE, 2005, p. 259 e 196).
[6] Por isso, se não nos colocarmos a questão na radicalidade do que nos apresenta nossa clínica hoje, de sexualidades tantas vezes ilegíveis e insistirmos em tomá-las a partir do prisma masculino-feminino, podemos estar endossando perigosos usos de uma matriz simbólica, como se real fosse. É uma crítica justa e justifica que sejamos tão mal-vistos pelos ativistas trans. Como resume Gayle Rubin: “A psicanálise muitas vezes em vez de ser uma teoria (de como funcionam) os mecanismos de reprodução dos arranjos sexuais (heteronormativos), se torna (muitas vezes) ela própria um desses mecanismos” (Rubin, G. “The traffic in women” apud. Fajnwaks, F. e Leguil, C. op. cit. p. 22).
[7] Cf. por exemplo, as elaborações de Lacan com relação ao conjunto vazio e o Um, e à impossibilidade do “2” se sustentar por si só: Lacan. J. O seminário, Livro 19, … ou pior, Rio de Janeiro, JZE, 2012, pp. 140 e 169.
[8] “Vocês estão no declínio de um dia de tempestade e de fadiga, vocês consideram a sombra que começa a invadir o que os cerca e alguma coisa passa pela cabeça de vocês, que se encarna na formulação a paz do anoitecer. Creio que todo aquele que tem uma vida afetiva normal sabe bem que é algo que existe e que tem um valor bem diverso que o da apreensão fenomenal do declínio das cintilações do dia” e “O dia e a noite não é de modo algum algo que seja definível pela experiência. A experiência pode apenas indicar uma série de modulações, de transformações e mesmo uma pulsação, uma alternância de luz e obscuridade, com todas suas transições. A linguagem [e o mundo para o homem] começa na oposição – o dia e a noite” (Lacan, J. O Seminário – Livro 3, As psicoses, Rio de Janeiro, JZE, 1985, p. 160. e p. 194.
[9] Cf. a função do ponto de basta como assim definido e a sexuação
[10] Cf. Lacan, J. O Seminário, Livro 20, Mais ainda, Rio de Janeiro, JZE, pp. e Miller, J. A. “Uma repartición sexual”, El partenaire-síntoma, Buenos Aires, Paidós, 2008, pp. 303-310.
[11] Como destaca Clotilde Leguil (cf. Fajnwaks, F. e Leguil, C. op. cit. p. 61).
[12] Cf. Miller, J. A. “O inconsciente e o corpo falante”, disponível em: http://www.congressoamp2016.com/pagina.php?area=8&pagina=44 , acesso em 07/07/16, Milller, J. A. Lacan, J. “Joyce, o Sintoma”, Outros escritos, Rio de Janeiro, Zahar, 2003, p. 565 e 386. e Laurent. E. “Genre et Jouissance”, Subversion lacanienne des théories du genre, op. cit. pp. 145-162. Lecoeur, B. “Acontecimento de corpo”, Semblantes e Sinthoma, São Paulo, EBP, 2009, pp. 26-28.
[13] “(…) Se um dos principais dos esforços da teoria queer é de pensar a sexualidade fora das categorias de gênero, nós temos aí [o ensino de Lacan] justamente um bom exemplo” Saez, J. Théorie queer et psychanalyse, éd. Epele, Paris 2005, p. 123, citado por F. Fajnwaks op. cit. 123.
[14] Como resume Gayle Rubin: “A psicanálise muitas vezes em vez de ser uma teoria (de como funcionam) os mecanismos de reprodução dos arranjos sexuais (heteronormativos), se torna (muitas vezes) ela própria um desses mecanismos” (Rubin, G. “The traffic in women” apud. Fajnwaks, F. e Leguil, C. op. cit. p. 22). Retomo ligeiramente modificada a pergunta de Jimenez citada por Fajnwaks: Perez, Jimenez, J. C. De lo trans identidades de gênero y psicoanalisis, Buenos Aires, Grama, 2013, p. 50, apud. Fajnwaks, F. e Leguil, C. op. cit. p. 44.
[15] Ayouch, T. “Quem tem medo dos saberes T.? Psicanálise, estudos transgêneros, saberes situados”, Periodicus, ibid., http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/viewFile/17171/11326 (acesso em 09/09/16).
[16] Cf. Attié, J. Entre le dit et l’écrit, Paris, éd. Michèle, 2015, p. 219. E tb “A função “analista”, para Lacan é essa, a de um desejo aberto, que chamou, desejo do analista. É ele que pode sustentar para seu paciente o playground da transferência, como diz Freud, um espaço sem demanda específica, sem exigências ou preconceitos demais, para que o analisante se encontre com as tantas demandas e fixações libidinais que fizeram história em sua vida e as faça funcionar de outro modo”. Rêgo Barros, R. e Vieira, M. A. Mães, Rio de Janeiro, Subversos, 2015, p. 139.